sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Responsório

Vais-me dizer que eu inventei a história. Que eu sou um cínico e a história é impossível. Andas muito longe da verdade.

O padre Abreu não é padre, nunca chegou a sê-lo. Não tem cabeça para teologias e as latinadas cansam-no. Mas veste-se à futrica, como os padres modernos, e sempre que pode exercita a função. Mora aqui na cidade. E o povo, que não separa o facto do direito, chama-lhe padre Abreu.

Razão terá, que o padre Abreu não sonha com outra coisa, passa a vida na sé. Ajuda á missa, cuida da liturgia, aconselha as devotas e decora os responsos. Já perdoou pecados capitais, e gente há que entrou no céu por sua mão.

Há tempos foi preciso enterrar um cristão, numa aldeia dessas despovoadas, onde nem padres vão. E o padre Abreu lá foi, a encomendar o defunto, a devolvê-lo ao pó. Mas os parentes vieram a saber que o padre Abreu nunca tomara ordens e temeram o pior. Puseram-lhe uma demanda em tribunal.

O padre Abreu sentou no banco dos réus a gravidade e a mansidão dum sócio do Vaticano. Alegou em defesa o serviço de Deus e afiançou as encomendações.

- Pois faça aí o responsório dum defunto! - ordenou o juiz, a esfolhear os códigos. - Já veremos se merece remissão!

Não pedia outra coisa o padre Abreu. O meretíssimo chegou ao fim apaziguado, como quem deixa um amigo em boas mãos. E absolveu o réu.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O chifrolé vermelho

O Franklin morava na rua de cima, numa casita de alpendre sobre o largo. Tinha uma costela de trafulha e outra de aventureiro,e fazia negócios de madeiras. Nesse tempo era inesgotável a reserva de castanheiros que alguém plantara há séculos e cobriam toda a encosta. Não faltava trabalho ao Franklin,que levava para longe, ninguém sabe para onde, os velhos troncos que cheiravam a terra, empilhados numa camioneta a queixar-se das molas.

A estrada nova era ainda recente,coisa de poucos anos. Muitas mulhres trabalharam nela, se não mesmo garotos, que então não havia máquinas nem leis. Sentados ali no chão a tarde inteira, partiam à martelada os pedregulhos, que desfaziam em brita para o maquedame. E lá ao fundo, no largo, rompia da estrada velha, vinha em recta por ali fora entre barreiras, rasgava as terras do conde e lá seguia para norte, para a Senhora da Cabeça, para as serranias da Lapa.

Uma tarde o Franklin apresentou-se na rua com um automóvel vermelho, que largava petardos pelo ar e cheirava a gasolina. Tinha um focinho comprido, e na ponta do focinho uma dentuça a luzir, era  mesmo um bicho a rir-se.

_ Isto é um chifrolé vermelho, nunca vistens?!

E o adjunto, que nunca vira de perto uma coisa parecida, ficou-se a observar o animal, enquanto o Franklin forcejava passagem para a taberna.

Pouco depois regressou ao chifrolé, ajeitou-se-lhe ao volante e dirigiu-se ao largo. Apontou à estrada nova e toda a santa tarde se passou num badanal, recta acima, recta abaixo. Quando se aproximavam as curvas do conde era uma chiadeira de travões, até inverter a marcha no largo da Aldeia Nova. A poeirada espessa já tapetava as eiras, e o trovejar do motor deixava numa fona a canzoada, e enchia o vale inteiro de estampidos.

Quando parou outra vez em frente da taberna, o nariz do chifrolé já vinha a fumegar. Alguém fou buscar um balde de água, mas logo o Franklin se pôs a rogar pragas.

_ Só uma besta quadrada é que não sabe que estes fogos não se apagam assim!

E abriu a boca do bicho, enquanto berrava que trouxessem uma pazadas de saibro. Foi ali um sobressalto. E o fumo só amainou quando o Franklin se foi a correr a casa, trouxe um cobertor de papa e abafou nele o motor que resfolegava.

Depois disto o chifrolé desapareceu. E uns anos depois ouviu-se que o Franklin tinha morrido em África. Debaixo dum tractor que um preto fez empinar e cambulhou.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nocturno, em si, menor

Alguns dormitam, maçados, nos beliches, ele viaja a noite inteira a pé. Entre o bar e o corredor, entre uma nova cerveja e os considerandos do salário que recebe. Quase setecentos contos, mesmo quando não embarca. Como agora, que vem a casa ver a mulher. Mas isso vai acontecer só amanhã, lá pelo dia, em chegando à Pampilhosa, depois de atravessar a infindável noite basca, a leonesa, a castelhana, num Sud-Expresso lôbrego.

Alfredo tem trinta anos e deixou a escola antes do tempo, em Mira. Foi trabalhar com o pai, no tempo em que havia quarenta companhas só nas artes da xávega. A princípio puxavam a rede à unha, com juntas de bois que enterravam os cascos no areal macio. Hoje não chegam à dúzia. O peixe foi-se embora, será culpa das chuponas espanholas. E ficou tão baratona lota quanto é caro nas bancas do mercado, não se compreende Portugal. Paga-se o gazol do barco e o resto mal dá para viver. De forma que o pessoal começou a emigrar e ele foi parar a Quipert, ao pé de Nantes. Foi há dois meses, mais um cunhado, é esta a primeira vez que vem a casa.

Em Quipert saem para o mar à quinzena e Alfredo é o cozinheiro. O dono do barco é tão velho que já não navega, toda a companha de sete é contratada. Mas o peixe vai à lota ao mesmo preço para todos e toda a gente ganha.Só não entende o que se passa em Portugal.

Alfredo vem excitado com os considerandos do salário que recebe. Jantou no vagão-restaurante, bebeu uma garrafa de bom vinho, no fim pediu um conhaque e pagou quarenta euros mas valeu a pena. Depois foi aturando a noite a poder de cervejas, e é por isso que já lhe arrasta a voz, e tem este bafo choco e amargoso, e repisa outra vez os considerandos do salário que recebe. Quando chega a Vilar Formoso desce ao cais durante meia hora, o tempo de mudar a máquina ao comboio. Bebe outra cerveja na cantina, com uns camaradas negros que exercitam um hip.hop lusófono, e também chegam da Europa.

Lá pelo meio-dia, toldado como vai, Alfredo levará tempo a encontrar-se com a mulher. E, logo que o conseguir, vão ser horas de apanhar outra vez o comboio para voltar a Quipert, ao pé de Nantes. Onde agora é cozinheiro, sempre que sai ao mar, a pensar nos considerandos do salário que recebe.