quarta-feira, 14 de julho de 2010

Fastos duma pátria ditosa-2

[mapa dos locais da sedição]
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Para atingir tão elevados objectivos, o melhor que pode acontecer ao governador Gorgulho é uma insurreição comunista. É ela que lhe há-de permitir sujeitar os nativos amotinados às grilhetas das brigadas e ao "contrato" nas roças. E o enfermeiro Coelho, que veio de Estremoz, aprendeu na secreta como se faz um plano detalhado.
Em Janeiro de 1953, Zé Mulato e o Coelho procedem à colagem dos panfletos falsos que em dialecto apelam à revolta. "Vamos cortar a cabeça do governador, matar todos os brancos e ficar com as mulheres deles"!
Os amotinados têm armas comunistas, alguém dirá mais tarde que viu um barco russo aproximar-se da costa e dele sairem muitos homens com um motor às costas, a voar na direcção da ilha. Aos desgraçados nativos, que não sabem de nada, apenas lhes cheira a esturro. Amedrontados, refugiam-se nas matas.
O capitão da polícia, que não dá mostras de inspiração nazi, é posto em prisão domiciliária e devolvido a Lisboa. Salustino Graça, o engenheiro agrónomo, acusado de ser o cabecilha e futuro governante, é feito prisioneiro. E o incansável Gorgulho elabora relatórios, distribui armas e mobiliza os brancos para a caçada: comerciantes, feitores de roças, militares, por junto 600 homens.
Por benesse dos deuses, um alferes é morto à catanada por Agostinho, um nativo que fugira para a mata e estava a ser perseguido. Os dados estavam lançados. E o que a seguir se passou não tem descrição possível.
A praia de Fernão Dias transformou-se em campo de concentração, e os presos de delito comum passaram a capatazes. A cadeira eléctrica improvisada, a coroa de espinhos feita de lâmpadas eléctricas, a tortura selvagem aplicada por fanáticos operaram maravilhas. Puseram presos a confessar que sim, que havia apoios de Moscovo e armas russas.
Muitos mortos, ou nem tanto, acabaram emparedados, nos caboucos das obras. Sobre um deles foi mais tarde confessado que"... ainda respirava, fui obrigado a fazer massa para o chapar na parede. Ele gritava e meteram-lhe cimento na boca e nos olhos". Mais de um milhar de nativos acabaram chacinados.
Para a PIDE era aquilo uma vergonha, um golpe comunista e ela sem saber de nada. Por isso um dia desembarcou na ilha o inspector Falcão, a investigar. E pouco depois chegaria Palma Carlos, um advogado contrário ao regime, alertado em Lisboa por familiares de presos.
O cinismo da história juntou, por uma vez, a PIDE e o reviralho. Depressa se concluiu que tudo fora encenação.
A carreira imperial de Gorgulho terminou precocemente, abrilhantada por uma Torre e Espada. Salazar preservou do escândalo o coronel e os poucos militares, bastou-lhe sacrificar o enfermeiro e o pára-motores.
Do massacre de Batepá, em 1953, pouco mais se ouviu falar. A bem da nação, que os portugueses têm mais em que pensar. E ao espelho da história, que os reflecte, chamaram-lhe mentiroso. Ainda hoje lhe chamam, se preciso for.