sexta-feira, 22 de abril de 2016

Bons sinais

Em Junho de 1974 pusemos a hipótese de trazer para Lisboa os aviões, costa acima, em escalas sucessivas. Sendo a primeira da Bissalanca ao Sal, com oitocentas milhas sobre o mar, a missão era medir com exactidão o raio de acção da aeronave. Com carga máxima de combustível, aos 40 mil pés de altitude, para consumo mínimo. 
Em parelha, comigo a asa do coronel comandante, desenhámos triângulos sucessivos dentro das fronteiras da Guiné, uma pérola do império. A essa altitude, na fronteira do  Senegal, o avião mais parecia barcarola à deriva.
Jacaré – Ó dois, passa a chefe!
Jagudi – Entendido, a chefe!
O coronel cola-se à minha asa.
– Estabiliza a altitude, ó Jagudi!
– Estabilizada!
O coronel dá-se conta do meu voo irregular e errático.
– Ó Jagudi, estabiliza a altitude, porra!
- Estabilizada, Jacaré!
(...)
– Jagudi, sintoniza o rádio-farol (frequência tal)!
– Sintonizado!
– Rumo indicado! Potência 60%! Iniciar descida a 7 mil pés/min! Rumo indicado!
- 50%! Freios fora!
(…)
– Nivelar aos 3 mil! 70%! Freios dentro!
- Rodar pela direita, 60%, descer para 1.500!
- Rumo indicado! Nivelar aos 1.500!
- 160 nós!
- 60%! 150 nós! Rumo indicado, Jagudi!
- 140 nós! Trem em baixo!
- 135 nós! Flaps 50%!
- 130 nós! Flaps 100%!
(...)
E o coronel colado a mim.
- Jagudi, tens a pista à vista?!
- Negativo!
- Potência 70%! 140 nós! Flaps 50%! Rodar pela direita! Manter 1.500!
- Rumo indicado, Jagudi!
(...)
- Jagudi, Tens a pista à vista?!
- Afirmativo!
- 40%! Freios fora! Flaps 100%! Aterra essa merda, porra!
Só quando me vê no asfalto é que o coronel mete gás à tábua, recolhe a hortaliça toda e vai-se embora. Eu despejo na pista a passarola, puxo o pára-quedas de travagem e paro mesmo na pista. Alguém virá rebocá-la para a placa, a mim levam-me para a enfermaria.
Desabituado de tamanhas altitudes, o regulador cortara-me o oxigénio. E eu entrei lentamente na hipóxia, insidiosa, melíflua, fatal. Estava a levar-me a visão.
O velho coronel apercebeu-se disso, tinha o rabo mais pelado que um chimpanzé do mato. Tratou de me pôr no chão. E agora revejo o filme, posso pará-lo em qualquer momento. O que não posso parar são estas lágrimas, que ainda caem. Bom sinal.