segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Vilancico de Natal
Fiquei algo pasmado quando o vi aparecer à primeira consulta, confesso que não reconheci nele o tipo de paciente que se dispõe a pagar o meu tempo. Era um homem na casa dos quarenta, e tinha um ar frágil e consumido. Vestia uma bata de sarja azul, dessas de operário antigo, e trazia semeadas no cabelo desgrenhado aparas de madeira. Quando me disse que era carpinteiro tive as minhas dúvidas. Porque a profissão deixou-me esta costela de detective, e vi-lhe as mãos demasiado finas para afagos de enxó e de garlopa. Rocei devagar a palma no queixo, e mandei-o deitar-se na marquesa.
Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto , há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe causara inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.
Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.
De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.
Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.
Não foi preciso desbravá-lo muito, logo se pôs a relatar uma viagem ao egipto , há uns vinte e tal anos. Fora uma teimosia da mulher, boa tecedeira e cardadora de lãs, mas de um alevantado vezo que sempre lhe causara inquietações, como quem trouxesse na barriga um rei qualquer. Um dia ela apareceu a dizer que tinham de partir sem demora, era preciso poupar a criança à perseguição dos inocentes, para cumprir a voz do profeta e salvaguardar-lhe o desígnio transcendente.
Alugaram um solípede caríssimo, mas a viagem foi cheia de percalços e acabou por durar uma eternidade. Volta não volta ela dizia que era preciso calçar ao asno os cascos ao contrário, assim estava escrito, para confundir os perseguidores. O pobre do animal é que já não estava capaz de tais subtilezas, fez o que pôde para adequar o passo às profecias, mas as constantes mudanças de solias complicavam-lhe a andadura. Voltaram a casa os quatro sãos e salvos, depois de atravessarem o deserto, sabe deus como.
De resto, ele sempre olhara para este filho com algum desconforto, desde que a aparadeira confirmara a virgindade da mãe, na altura do parto. Mas os problemas com ele estavam só a começar. Desde cedo se mostrou um superdotado, atraía multidões com enigmáticas parábolas abrangentes, e ultimamente começara a constar que tinha poderes. Transformava a água em vinho, e matara a fome à multidão com meia dúzia de pães e um par de peixes do lago.
Eu não sou apostólico nem romano, e já vi muitos abismos do mundo. Não costumo perder as estribeiras com os relatos dos pacientes, mas não assim com este. Fiz logo entrar a equipa da camisa-de-forças, e mandei-o internar imediatamente. Imagino o que não seria, ter que repetir tudo outra vez.
Portugalmente (10)
(...)
- De que vivem as pessoas aqui?
- A gente é muito pouca, as mais das casas estão vazias, durante o ano inteiro. Quem tiver umas terras deixa-as por cultivar, ou vai-as lavrando a tractor, para as ervas as não comerem. E tanto custaram elas a ganhar...
O viajante pensa que muitas vezes a vida é madastra duplamente. Como neste caso. Ontem sofriam as pessoas pela falta da terra, por quererem plantar uma couve e não terem um palmo de seu. Hoje sofrem porque a têm, sem lhe poderem valer. No geral são gente idosa, alguns trouxeram uma pensão de França, outros nem isso. Da pouca gente nova, há quem esteja a receber o rendimento mínimo, e alguns vão fazer lá fora as campanhas da fruta.
- Eu acho bem, o rendimento mínimo, mas devia haver outra fiscalização!
Quem assim pensa é a dona Blandina, mas nenhum dos presentes sabe distinguir os políticos que o criaram, daqueles que só o não levam à forca enquanto não puderem. Todos acham que foi na emigração que muita gente deu um salto na vida. E nenhum sabe explicar por que razão nunca houve, em toda a eternidade, mais que um caminho de cabras para ir ao mercado, e agora tem a gente uma estradinha que dá gosto, de fazer inveja a um lisboeta.
O viajante já se prepara para partir, quando entra um fulano atarefado a pedir uma cerveja em altos berros, parece que está zangado com o mundo. A locandeira bem lhe repreende os modos, mas ele continua a falar tão alto que é impossível ouvi-lo. Como se estivesse a conversar connosco, além do cimo da serra do Galgueiro.
O homem está muito apressado, porque tem que ir abrir uma cova no cemitério duma aldeia vizinha. Para um rapaz de mota, que vinha da casa das brasileiras, às quatro da manhã. E não viria muito mal cuidado, porque, a páginas tantas, os colegas olharam para trás e já o não viram, que já estava todo estrampalhado na valeta, ali à curva da quinta do Forcas, quando se vem de Trancoso. Ficam duas filhitas, uma mulher nova...
O viajante fica impressionado só com o pouco que lhe traduz a dona Blandina, por si não entendeu uma única palavra. O falador tem um ar estranho e visionário, faz lembrar uma figura qualquer, mas o viajante não sabe qual é. E só encontra a resposta quando sai do café, ao dar com um rocinante preso a uma carroça, com duas palhas em cima. O cavalicoque está tão magro que os ossos lhe vão furar a pele. Está tão abatido e cabisbaixo que parece não aguentar o peso da cabeça, e é de temer que se fine ali mesmo. Mas o dom quixote continua lá dentro a beber a sua cerveja, indiferente à sorte do companheiro, a contar as suas histórias inaudíveis, e a barafustar contra os moinhos de vento que há no mundo.
(...)
- De que vivem as pessoas aqui?
- A gente é muito pouca, as mais das casas estão vazias, durante o ano inteiro. Quem tiver umas terras deixa-as por cultivar, ou vai-as lavrando a tractor, para as ervas as não comerem. E tanto custaram elas a ganhar...
O viajante pensa que muitas vezes a vida é madastra duplamente. Como neste caso. Ontem sofriam as pessoas pela falta da terra, por quererem plantar uma couve e não terem um palmo de seu. Hoje sofrem porque a têm, sem lhe poderem valer. No geral são gente idosa, alguns trouxeram uma pensão de França, outros nem isso. Da pouca gente nova, há quem esteja a receber o rendimento mínimo, e alguns vão fazer lá fora as campanhas da fruta.
- Eu acho bem, o rendimento mínimo, mas devia haver outra fiscalização!
Quem assim pensa é a dona Blandina, mas nenhum dos presentes sabe distinguir os políticos que o criaram, daqueles que só o não levam à forca enquanto não puderem. Todos acham que foi na emigração que muita gente deu um salto na vida. E nenhum sabe explicar por que razão nunca houve, em toda a eternidade, mais que um caminho de cabras para ir ao mercado, e agora tem a gente uma estradinha que dá gosto, de fazer inveja a um lisboeta.
O viajante já se prepara para partir, quando entra um fulano atarefado a pedir uma cerveja em altos berros, parece que está zangado com o mundo. A locandeira bem lhe repreende os modos, mas ele continua a falar tão alto que é impossível ouvi-lo. Como se estivesse a conversar connosco, além do cimo da serra do Galgueiro.
O homem está muito apressado, porque tem que ir abrir uma cova no cemitério duma aldeia vizinha. Para um rapaz de mota, que vinha da casa das brasileiras, às quatro da manhã. E não viria muito mal cuidado, porque, a páginas tantas, os colegas olharam para trás e já o não viram, que já estava todo estrampalhado na valeta, ali à curva da quinta do Forcas, quando se vem de Trancoso. Ficam duas filhitas, uma mulher nova...
O viajante fica impressionado só com o pouco que lhe traduz a dona Blandina, por si não entendeu uma única palavra. O falador tem um ar estranho e visionário, faz lembrar uma figura qualquer, mas o viajante não sabe qual é. E só encontra a resposta quando sai do café, ao dar com um rocinante preso a uma carroça, com duas palhas em cima. O cavalicoque está tão magro que os ossos lhe vão furar a pele. Está tão abatido e cabisbaixo que parece não aguentar o peso da cabeça, e é de temer que se fine ali mesmo. Mas o dom quixote continua lá dentro a beber a sua cerveja, indiferente à sorte do companheiro, a contar as suas histórias inaudíveis, e a barafustar contra os moinhos de vento que há no mundo.
(...)
domingo, 21 de dezembro de 2008
Ester
Este nome que lhe deram no baptismo veio duma bíblia muito antiga. É como ela. Vive em Almofala há tantos anos, que a terra de Riba-Côa ainda era leonesa, quando ela nasceu.
Tem uma filha que mora ali ao lado, numa casa alta e moderna, onde a poeira não entra. Mas Ester gosta mais da sua casa pequena, que sempre viveu nela, e não tem escadarias que subir. Senta-se no poial ao sol da tarde e faz o seu trabalho. Hoje é este naperon para o enxoval da neta, que mora na cidade e anda para se casar.
Ester é feliz todos os dias, só ela sabe como. E está à espera de que chegue o Natal, que então há-de vir o filho, da cidade, para a ceia da Consoada.
sábado, 20 de dezembro de 2008
Portugalmente (9)
2
O viajante deixa para trás os últimos chalés de Sebadelhe, que encontraram lugar ao longo da estrada. Têm uma geometria caprichosa, e o verde pujante das latadas e trepadeiras que os enfeitam faz sobressair o ocre dos azulejos e o vermelhão pesado de algumas paredes. O último de todos, já no meio duns pinhais, seria um bom exemplar do rococó pós-moderno, se uma tal coisa existisse. E teria dimensões humanas, não fora o anexo erguido nas traseiras, que pede meças ao convento de Mafra e lhe serve de armazém.
A estradinha, que é uma fita escura de papel macio, vai descendo entre arvoredos, agora pinhais que resistem, logo soitos de castanheiros muito velhos, a deslizarem há séculos para o vale. Avistam-se chãos ao abandono, pequenos campos de cereal maduro, e ao encontrar as primeiras hortas verdes logo depara o viajante com uma tabuleta a anunciar as Corças. Lá estão as primeiras vivendas instaladas na encosta, depois de passada a estátua duma Virgem, provavelmente de Fátima. O viajante lamenta a sua desfortuna, a dela. Para além dos trabalhos de cuidar de quem passa, deixou-a o paisagista de costas eternamente voltas para o vale, proibida de assistir, alguma vez, ao milagre do nascer do sol.
A estrada conduz directamente a um pequeno largo, que é o centro da aldeia, onde há dois cafés. Bem a propósito, pensa o viajante, pois de um café vem ele precisado. Mas a esta hora a dona Blandina tem a máquina desligada. Recebe o seu cliente com ar afável, e explica-lhe que a escassa clientela não paga, as mais das vezes, a corrente que a máquina consome. O viajante tem pena, faz-lhe falta o sabor do café, e mais ainda a cafeína, mas não quer sair assim de imediato, e ir bater à porta da concorrência em frente. Terá de contentar-se com a explicação pesarosa da estalajadeira, e com o gesto curioso dos três conversadores que estão ali sentados a uma mesa, e interromperam a conversa. O mais velho é tio da dona Blandina, o outro é irmão e a mulher é cunhada. Está, assim, tudo em família. Todos andaram por França, no seu tempo, a custo se encontrará na aldeia quem o não tenha feito, e a dona Blandina nunca mais se esqueceu da aflição com que passou a fronteira de Espanha, com os dois filhos pequenos, há trinta e tal anos. Este viajante pode testemunhá-la, que a viu bem viva nos gestos espontâneos da mulher. E o viajante, que já ouviu muitas histórias de emigrantes, e viu ainda mais aventuras no cinema, conclui que não ouviu todas as histórias, nem viu os filmes todos. Nunca tinha imaginado uma mulher a saltar, de noite, a fronteira, com dois filhos ao colo. Mesmo uma mulher assim desembaraçada, como seria então, e ainda hoje é, a dona Blandina.
O marido estava do outro lado, à espera dela, e levaram dois dias a chegar ao norte da França. Viveram lá dez anos, mas as humidades do clima davam-lhe muito mau viver. De forma que um dia decidiram voltar antes do tempo, já lá vão vinte anos, por via da saúde dela. Depois de construída a casa, abriram o café e uma mercearia ali ao lado. A dona Blandina encarrega-se do atendimento, está-lhe mais no feitio despachado. O homem trata das hortas, do renovo, há uns anos ainda teve uma vaca, mas deixou-se dela. Agora só tem uns bichos para os gastos de casa, um porco, umas galinhas, que outra coisa não paga a pena, nestes tempos que correm. E a dona Blandina já decidiu fechar a sua mercearia. Por falta de clientes, e pelas complicações da contabilidade, e das papeladas que agora são obrigatórias.
- De que vivem as pessoas aqui?
(...)
O viajante deixa para trás os últimos chalés de Sebadelhe, que encontraram lugar ao longo da estrada. Têm uma geometria caprichosa, e o verde pujante das latadas e trepadeiras que os enfeitam faz sobressair o ocre dos azulejos e o vermelhão pesado de algumas paredes. O último de todos, já no meio duns pinhais, seria um bom exemplar do rococó pós-moderno, se uma tal coisa existisse. E teria dimensões humanas, não fora o anexo erguido nas traseiras, que pede meças ao convento de Mafra e lhe serve de armazém.
A estradinha, que é uma fita escura de papel macio, vai descendo entre arvoredos, agora pinhais que resistem, logo soitos de castanheiros muito velhos, a deslizarem há séculos para o vale. Avistam-se chãos ao abandono, pequenos campos de cereal maduro, e ao encontrar as primeiras hortas verdes logo depara o viajante com uma tabuleta a anunciar as Corças. Lá estão as primeiras vivendas instaladas na encosta, depois de passada a estátua duma Virgem, provavelmente de Fátima. O viajante lamenta a sua desfortuna, a dela. Para além dos trabalhos de cuidar de quem passa, deixou-a o paisagista de costas eternamente voltas para o vale, proibida de assistir, alguma vez, ao milagre do nascer do sol.
A estrada conduz directamente a um pequeno largo, que é o centro da aldeia, onde há dois cafés. Bem a propósito, pensa o viajante, pois de um café vem ele precisado. Mas a esta hora a dona Blandina tem a máquina desligada. Recebe o seu cliente com ar afável, e explica-lhe que a escassa clientela não paga, as mais das vezes, a corrente que a máquina consome. O viajante tem pena, faz-lhe falta o sabor do café, e mais ainda a cafeína, mas não quer sair assim de imediato, e ir bater à porta da concorrência em frente. Terá de contentar-se com a explicação pesarosa da estalajadeira, e com o gesto curioso dos três conversadores que estão ali sentados a uma mesa, e interromperam a conversa. O mais velho é tio da dona Blandina, o outro é irmão e a mulher é cunhada. Está, assim, tudo em família. Todos andaram por França, no seu tempo, a custo se encontrará na aldeia quem o não tenha feito, e a dona Blandina nunca mais se esqueceu da aflição com que passou a fronteira de Espanha, com os dois filhos pequenos, há trinta e tal anos. Este viajante pode testemunhá-la, que a viu bem viva nos gestos espontâneos da mulher. E o viajante, que já ouviu muitas histórias de emigrantes, e viu ainda mais aventuras no cinema, conclui que não ouviu todas as histórias, nem viu os filmes todos. Nunca tinha imaginado uma mulher a saltar, de noite, a fronteira, com dois filhos ao colo. Mesmo uma mulher assim desembaraçada, como seria então, e ainda hoje é, a dona Blandina.
O marido estava do outro lado, à espera dela, e levaram dois dias a chegar ao norte da França. Viveram lá dez anos, mas as humidades do clima davam-lhe muito mau viver. De forma que um dia decidiram voltar antes do tempo, já lá vão vinte anos, por via da saúde dela. Depois de construída a casa, abriram o café e uma mercearia ali ao lado. A dona Blandina encarrega-se do atendimento, está-lhe mais no feitio despachado. O homem trata das hortas, do renovo, há uns anos ainda teve uma vaca, mas deixou-se dela. Agora só tem uns bichos para os gastos de casa, um porco, umas galinhas, que outra coisa não paga a pena, nestes tempos que correm. E a dona Blandina já decidiu fechar a sua mercearia. Por falta de clientes, e pelas complicações da contabilidade, e das papeladas que agora são obrigatórias.
- De que vivem as pessoas aqui?
(...)
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Modernismo

E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo
Meu desacreditado burguês apinocado
Da rua dos bacalhoeiros do meu ódio
Co'a Felicidade em casa a servir aos dias!
Personalidade ímpar da cultura portuguesa do séc. XX, figura determinante do primeiro modernismo, Almada Negreiros foi poeta, romancista, dramaturgo, pintor, desenhador, bailarino, provocador, palhaço, agitador, futurista e tudo!
Em 1969 foi pela primeira vez mostrado na televisão nacional.
Morreu em 1970.
Folgaram os Júlios Dantas, filhos da pátria ditosa.
Dava-nos lições de filosofia e de fraternidade...
Ao Teórico, ao Naco, ao Jacinto, ao Dente Partido, ao Cavalo de Ferro, a todos!
De manhã levantávamo-nos às oito e vinte e cinco para a aula das oito e meia, apertávamos os botões no caminho e galopávamos por escadarias e vielas íngremes contra o vento aguçado que nos fazia esperas às esquinas, e nos mordia a porcelana rósea das orelhas. O maço dos cadernos abraçado ao peito baloiçava ao compasso do coração que nos trotava desenfreado, e só amainava depois de entrar na sala, antes que se esgotasse a tolerância da campainha despótica. Lá dentro a norma era a do livro único, e o saber era um testamento de verdades definitivas, a gotejar dos lábios pausados do mestre sobre a turma desatenta, perdida a imaginar a vastidão dos desertos de Gobi ou a violência do mar nas escarpas da Camecháteca.
Em Maio, quando voltava o sol que trazia ameaças de exames próximos, cortávamos em três a lombada dos compêndios, e passávamos os dias, de cadernos enrugados na mão, na passada mística de monges em retiro, a recitar a litania das revisões na estrada da Dorna ou nas curvas do matadouro. Nessa época mudava todos os dias a geografia do mundo, havia sempre o nome dum país novo a acrescentar no compêndio, riscai na página cem a colónia do Alto Volta, que passou esta noite a chamar-se Burkina Faso e tem a sua capital em Uagadugu. Mudava todos os dias a geografia do mundo, que estava simplesmente dividido em bons e maus e era menos incompreensível do que é hoje. Gentes e países maus eram aqueles que nunca se contentavam com o que Deus mandava, e passavam a vida a reclamar mudanças e transformações. Do lado dos bons estavam os que aceitavam a autoridade estabelecida e a ordem ancestral, e Portugal era o melhor de todos porque em Portugal nunca mudava nada, o povo ia cumprir as promessas a Fátima, os ministros limitavam-se a ministrar, os polícias policiavam, os doutores doutoravam, os pais faziam filhos e suavam, as mães sofriam e calavam, os trabalhadores deviam trabalhar e aos estudantes competia decorar os compêndios sublinhados, e sobre todos mandava Salazar, para Angola, rapidamente e em força.
Mas nem todos os professores se limitavam a professorar. Alguns sabiam deveras do que falavam, por isso eram homens tranquilos que vinham à rua sem gravata e passeavam connosco ao travesso da Praça Velha, a mostrar-nos que era vão o gesto de ajoelharmos na relva do Dom Sancho, a protestar de braços abertos, no ar, ali no meio da praça, como quem saúda Mafoma. Ou o gesto de assistirmos, perfilados, aos domingos, à saída da missa da Misericórdia, em guarda de honra à passagem das matronas que ameaçavam romper os espartilhos, ou das meninas que disfarçavam sorrisos, embrulhados em véus de catequista. Pena é que poucos fossem, os tais professores, pois eram tolerantes com os guinchos da campainha despótica, e até às vezes saíam do deserto do compêndio para falar connosco doutras coisas mais urgentes da vida.
Nós não sabíamos nada do mundo, que era nessa época mais agreste e menos incompreensível do que viria a ser, limitávamo-nos a vê-lo à distância a que estava duma cidade ainda mais remota do que é hoje, e bem mais acanhada e submissa. Sentávamo-nos às tardes no café Monteneve, que era o café dos doutores, estava quente lá dentro e tinha painéis de azulejo com pastores e cães da serra, discutíamos os dramas do João Barois – se o universo, a natureza, o nosso próprio corpo não é senão um campo de batalha onde se confrontam miríades de células, como pode a sociedade dos homens ser diferente e estática, ou que vamos nós fazer deste absoluto dogmático dum deus imóvel e cristalizado? – líamos Walter Scott e o Cavaleiro Andante, jogávamos xadrez à procura duma nova saída de cavalo, construíamos textos à volta dum desenho improvisado numa folha e fumávamos cigarros Impala, que o Zé Corno vendia a três por cinco tostões. À noite, nos filmes para adultos, íamos ao cinema com cédulas de amigos mais velhos, e lançávamos gatos do alto das muralhas, para comprovar se caíam de pé. No Regalo do Boi cozinhavam-nos de borla uma galinha quando entregávamos duas, era tarefa a dobrar nos quintais do Torreão, mas sempre havia alguém que soubesse resolvê-la a preceito. Havia quem estudasse hipnotismo por correspondência, o manejo de forças misteriosas abria na verdade passagem para outros mundos, e o Zé Fernandes deu mesmo um passo gigantesco nos territórios do oculto, quando recriou, misturando mezinhas com elixires de droguista, a mágica alquimia que reduziria a mel o coração das colegas de Letras. Trazia ali a fórmula no bolso, dentro dum frasco de vidro, ao menos ficou explicado o fedor medieval que irradiava do rapaz.
Nós não sabíamos nada do mundo, apenas achávamos incómoda aquela espécie de silêncio de claustro, e suspeitávamos com vaga intuição de que havia em tudo uma outra história a desvendar. Tínhamos ouvido falar no saber e no livre pensamento, que transforma cada súbdito num cidadão, e acreditávamos piamente nisso, ainda não chegara o tempo das dúvidas e das desilusões. Trotávamos como gamos pela avenida das tílias na direcção do parque, o colégio das freiras era uma fortaleza com janelas que nunca se abriam, povoada por donzelas que viviam no maior recato e que nós considerávamos prisioneiras. As nossas emoções afectivas fervilhavam em circuito fechado, a turma só tinha rapazes e tudo o mais era um grande segredo. Discutíamos estas coisas caminhando nas veredas de saibro, na altura era toda a encosta uma grande mata de abetos, e um dia alguém encontrou num recanto os restos da donzelia de uma dessas prisioneiras, resumidos a uma esfarrapada peça íntima. Logo alguém arriscou identificar o fauno, e constou que era conhecida a pecadora. Porém, se a espinhosa verdade nos ia resistindo às investigações, muito mais duro, empedernido e encrespado se havia de mostrar o coração da velha madre directora, insensível como foi à carta que lhe enviámos a defender a causa da pobre madalena, caída neste lance por tão terreno momento de fraqueza. Nunca a retórica dos bíblicos exemplos foi tão inválida e vã, aquele de entre vós que não pecou lance a pedra primeira, nem o anjo da espada de fogo teria sido mais casmurro. Ainda não tinha passado uma semana, já a arguida estava expulsa da prisão.
Um dia a universitária marcou-nos encontro no café. Chegava de Coimbra, mais que todos, para nós, um lugar mítico. Era uma bela estampa de mulher, e calçava umas botas que geraram em nós persistentes fixações fetichistas. Foi ela que nos trouxe, repetidas vezes, notícias da contestação que agitava a universidade, e nos confirmou a suspeita de que o mundo era um lugar inquieto, e nos fez tomar consciência de que ninguém podia dar corda às pessoas e deixá-las a tocar pratos toda a vida, como bonecos de feira. Nós fazíamos uso ostensivo da sua companhia, passeávamos com ela pelas praças como quem exibe um troféu, a sua atenção, afinal, dava-nos estatuto e significado, pensávamos nós. Ela aceitou claramente a vassalagem, estamos para saber quem tirou deste arranjo o proveito maior.
Terá sido dos seus incitamentos que nasceu O Riacho, quem poderá agora deslindar este caso, ela dizia que era preciso romper os espartilhos e agir, o mundo estava aí à espera de que os homens o moldassem. E nós, que ainda hoje não sabemos ao certo se isto é verdadeiro, encontrámos no saudoso Francisco Pissarra a mão que nos assegurou ser possível. Ele tinha aqueles sapatos de sete léguas, abertos, ao andar, como um relógio às dez para as duas, dava-nos lições de filosofia e de fraternidade, e estendia-nos o garrafão da aguardente quando fazíamos serão lá em casa, noite fora. Dizia-nos que um dia haveríamos de rir do que então escrevíamos, mas que tudo estava certo, no momento. O Orlando Bernardo, que era tão grande de corpo como jeitoso de mãos, gravava a canivete no linóleo as ilustrações não figurativas. E nós voltámo-nos para a produção de textos que haviam de encher as oito páginas, desafiámos outros colegas, aceitámos a iniludível tutela da Mocidade Portuguesa que pagaria as custas previsíveis, levávamos os textos à velha tipografia de chumbo, catávamos as gralhas nos linguados de provas, alinhávamos a composição das páginas, recebíamos o jornal, organizávamos a distribuição, mobilizávamos amigos para a venda, e esgotámos a primeira edição com oitocentos exemplares a dez tostões. Desses ficou uma centena no seminário maior. O velho cónego reitor recebeu-nos a embaixada com empedernida prudência. Após vasto concílio, passou-nos para a mão uma nota de cem escudos e guardou os cem jornais, por certo uma ímpia vassoura acabou a varrê-los para o caixote, vá-se lá saber agora.
Nós ainda hoje não sabemos se o mundo é transformável, já todos vivemos uma coisa e o seu contrário. O que sabemos é que as pessoas o são, pelo que fazem. Foi isso que O Riacho nos mostrou.
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