quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Faunos 1

O que mal começa não tem final feliz, diz um princípio já velho. Não foi assim neste caso.
A coisa começou numa palestra que um encartado fez sobre Aquilino Ribeiro, centrada no romancinho Andam Faunos pelos Bosques, que eu nunca tinha lido.
Ficaram-me no fim perplexidades várias, que o mestre lá ensaiou passar a ferro. Com sucesso reduzido, porque nisto é como em tudo. Adiante!
Lá fui ler o romancinho e tudo se resolveu. Pois lá dentro tudo é muito transparente, incluindo as pechas de que sofre. Seja-me aqui tolerada a ousadia de pensar que mesmo das mãos dum mestre das artes literárias não caem apenas diamantes lapidados.
É uma sátira impiedosa, perpetrada por um jacobino reles, sem sombra de compaixão pela ronha lúbrica que dormitava emboscada debaixo das sotainas. E pela ironia subtil que reserva às filhas de Eva, em cujo seio faz ninho a perversidade a sério, mal nelas começam a despontar as cores da Natureza. No final, o que sai do romancinho é um hino à Vida, como era de esperar do Aquilino.
Alastra pelas aldeias da serra do Leomil uma praga demoníaca, e não há donzela púbere que escape ao castigo insaciável. Aqui é obra do Bicho-mau, além é dum demónio chifrudo, é dum sátiro peludo, dum fauno, dum silvano, chega a ser do Anticristo, e até dum anjo Inefável, que tinha vindo a regenerar o mundo. De concreto, de concreto, o leitor apenas assiste a um quadro, que este escriba não resiste a reproduzir.
(Padre Teodoro) saltou duas paredes, rastejou pelo mato, furou , até que atingiu o giestal, em cuja orla se deteve, o coração  aos pulos, a boca seca como tábua. À borda da ribeira, lá andava, lá andava Leopoldina, descalça, saiote alteado para a cinta, envolta na miríade azul das flores do linho, branca e vaporosa como Nossa Senhora nos céus ideais dum Murillo! (...) 
E na febre sensual, quase dolorosa, que o empolgou, seus olhos foram possuindo a perna nua que retoiçava no linho, roliça sem demais, nem vermelha, nem pálida, antes mármore rosado; palpando, depois, a cinta, mais mexida que ciranda, e os quadris que desciam do tronco em requebro de onda de alto mar. Foram desvendando o peito em que moravam duas pombas brancas, mais tímidas que as pombas dos pombais; gozando o rebite do nariz, tão estranhamente formoso, que a graça de Deus e a malícia do demónio se teriam associado para o fazer. Espojaram-se ainda, oh! espojaram-se, na cabeleira farta, luxuriosa de todos os rescendores que exala a terra: (...) Por muito, muito tempo, os olhos dele deliraram com o espectáculo delicioso e, decerto, Leopoldina, nervosa já e sem sossego, lhes teria sentido ora a carícia leve, ora a ferroada. (...)
Leopoldina ia e vinha à direita e à esquerda,cortando, atalhando, guiando a água, amiga indócil e teimosa; à medida, porém, que o tempo ia voando, mais e mais os seus olhos doudejavam e percorriam, inquietos, os visos dos outeiros. (...) Preso a ela por atenção quase reflexa, chegou o momento em que, ao arregaçar a saia, ela lhe mostrasse a perna nua até à virilha. E, subitânea, irrefragável, apoderou-se dele a tentação. Pegando duma pedra, a coberto das giestas, atirou-a. Perdeu-se aquela, perdeu-se segunda, mas Leopoldina bem sentiu bater a terceira. E, voltando-se na sua direcção, toda farfalhuda e aprumada, lhe deu senha de inteligência. (...) Mais lépida que a carricinha, correu a moça ao giestal. Lá ia o sol para trás dos montes, quem o via ir? Arrulhavam as rolas, qual arrulhar!
- Agora quer saber? - murmurou ela de olhos baixos, com um toque de mão concertando a saia. - Sempre é certo o que lhe disse...
- O quê?! Grávida?
- Em que trabalhos o meti! (...)

( Amanhã há mais!)