quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Desaba o mundo? E o que é que isso tem?!

Desde que um génio, já no ocaso, lhe prometeu o Nobel, o Gonçalo vive nas suas sete quintas. Deixa correr o marfim.
E constrói as suas fábulas a la Gregor Samsa, como o bom Kafka. Só lhe falta uma ruela em Praga e a paciência dos leitores.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Malhadinhas

"Provecto dos anos, uma tarde ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho de marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E - o Justo Juiz lhe perdoe as facadas, que as não deu em nenhum santo - nem se sentiu a atravessar as alpodras duma margem para a outra do negro rio."
Lisboa, 1922

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Agosto

Toda a vida assim foi. Quando a trampa em Portugal é muita, ou nele falta, monta-se um intercâmbio com o Brasil.
Fáxavor vão-se foder. Uns e outros!

domingo, 17 de setembro de 2017

Jorge de Sena, Camões e outros exilados 3

 
"(...) E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida; o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler.
E há mais e pior: quando no liceu líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados, que vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. (...)
Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. (...) Estes deuses, na dialética camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra , e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. (...)
Porque para o amor Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é para ele a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor não há heróis, nem há homens dignos desse nome. (...)
Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para o bem e para o mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África.(...)
Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, o desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento, e a sensualidade mais desbragada. Leiam-no e amem-no."
(1977)

sábado, 16 de setembro de 2017

Raposeta pintalegreta, senhora de muita treta!

 
"No dia seguinte começou o curso. Foram objecto da primeira lição os inimigos da raposa, que são três. O inverno rigoroso, o bicho-homem e os cães. E a dona professora explicou: (...)
 
II
 
O homem é aquele bicho de duas pernas que parece que não tem medo de nada e tem medo de tudo, que quer saber tudo e não sabe nada, e por isso é mau, cruel e caprichoso. Inferior a nós na corrida, no faro e no ardil, inventou para nos combater as armas de fogo, as ratoeiras de ferro e os cães ensinados."
 
Vasta obra do Aquilino será hoje dispensável. Mas o Romance da Raposa e o Malhadinhas serão sempre irrecusáveis!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livros das férias, do pe. Anselmo Borges

" (...) Durante o primeiro milénio houve inclusivamente papas casados. Foi o papa Gregório VII, no séc. XI, que impôs ao mesmo tempo essa obrigatoriedade e o centralismo papal. Mesmo assim, foi só no concílio de Trento, no séc. XVI, que foi ratificado com carácter universal, obrigatório para todos os padres no ocidente.
Paulo VI empenhou-se a favor do celibato opcional, sem o conseguir. João Paulo II (o polaco) previu a abolição com estas palavras: Sinto que acontecerá, mas que não seja eu a vê-la.
Os escândalos sucederam-se. Diz-se que no concílio de Constança (1914-1918) compareceram 700 prostitutas. Houve papas filhos de papas. Depois da lei do celibato obrigatório, nos sécs. XV e XVI, foram vários os papas que geraram filhos, quer já papas, quer na sua condição anterior de bispos.(...)
Há hoje mais de cem mil padres casados, que formaram família e tiveram de abandonar o sacerdócio. E eu pergunto porque é que a igreja não aproveita tantos deles, que queriam e têm qualidades para o exercício do ministério."
[in DN]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O surpreendente caso da múmia paralítica da quinta da Coelha, e da vivenda Mariani, e da travessa do Possolo

A manhosa abencerragem que os indígenas portugas mais tempo suportaram no governo lá foi fazer uma perninha na universidade de verão do PPD.
A todos mais nos valera ter ela passado a vida a medir gasóleo numas bombas de Boliqueime. Mas os deuses são assim, caprichosos, imprevisíveis, impiedosos.