sábado, 20 de setembro de 2008

Ecos da Sonora VIII

Esgotado pelas errâncias crepusculares de Al Berto, e pela algidez das suas madrugadas, subo as escadas a custo e abandono-me num banco do jardim. Calado fico meia hora a ver passar o mundo, a ruminar no que vejo.
Afinal há um segredo no gesto de estar vivo. É acreditar que vale a pena, e seguir. Seguir sempre, atrás dos outros. Mesmo sem acreditar que vale a pena.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

da capo - 9

PAÍS PARTIDO
Portugal teve um estado, antes de ser uma nação. Teve um esqueleto, antes de ganhar corpo. E quando começava a ganhá-lo, deslocalizaram-no para a Índia. Desacertou o passo e agora é o que se vê. Um país partido em dois países.
Um ficou com a história, mas perdeu o futuro. Arqueja debaixo dela. O outro é o país do sucesso, alheado do passado, bêbado de ilusões. Um esbraceja para escapar à penúria. O outro agita-se sem destino, como as formigas doidas. Nenhum entende o outro, e ambos mutuamente se desprezam.
O enterro dos dois será no mesmo dia. Até lá, há quem ganhe com isso. Conforme sempre foi.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

da capo - 8

PAÍS LITORAL
Os portugueses mudaram-se para a costa. Tanto ouviram contar histórias de marinheiros, que agora só se querem nas dunas. Alguns mesmo na rebentação.
As marés é que vão ganhar com isso. Em qualidade e volume dos destroços.

Pastiche III

Cinzento amanhece o dia.
Choram as folhas verdes
do limoeiro.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Tabuleta


Aqui se têm publicado, e se continuarão a publicar, alguns textos que já viram a luz noutros lugares.
Dois são os motivos para o fazer. Primeiro para os tanger ao lugar que lhes incumbe. Segundo porque assim ficam à disposição de eventual leitor que os não conheça. E como todos sabemos, há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

da capo - 7

TUDO PELA PÁTRIA
Manuel Passos é homem para sessenta. - Mais um pouco! - concede ele, a silvar a dentadura. Há trinta anos regressou de Angola e deixou passar o tempo. Logo que o génio lhe deu algum sossego, arranjou a caixa dos apetrechos. E quando está de maré vem abancar no Rossio, os olhos cheios de paisagens africanas. Toma o lugar do cliente, encosta-se à parede da farmácia, e fica-se a olhar os restos do império, que ainda passam.
Traz no braço dois obuses tatuados, pequeno espólio do servíço militar.
GAC 2 - Tudo pela Pátria - 1968
E ao mesmo tempo que vai puxando o lustro, olha de lado um africano enorme, que lá vai, de braço dado, com a sua matrona branca.
- Cada um com o seu é que estaria bem! Branco a branco, preto a preto! Mas cada um sabe da sua vida!
A matrona e o africano pararam no passeio, a quezilar com um patrício inconformado.
- A cabeça é o ponto fraco deles, vê-se na porrada e nos estudos. Não são dados a inventar, ficam-se pelo que ouviram. E nunca se atiram de cabeça!
As lembranças que me sobraram da guerra desmentem-lhe a teoria. Mas alimento a conversa e tomo notas.
- Isso é para quê, diga lá?!
- Para nada! É tudo pela Pátria!
O Passos põe-se a olhar os canhões que traz no braço. E sorri-me, displicente, já andava esquecido deles.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

da capo - 6

TABACARIA
Ela, mascando a chicla de boquinha aberta, os óculos arrumados no toucado. Ele, a bermuda abaixo do joelho, de barriga precoce a desabar.
Ela vai à escola de Comunicação Social, ele à Sociologia.
- Tás a ver?! Álvaro de Campos! Não gostas?
- Quê, o das odes?! Não, eu sou mais o outro, o Caeiro! É mais coisa!
Ontem, na festa, ele bebeu, gritou, curtiu o homem do chapéu. Ela apenas riu muito, pulou, os braços a adejar.
Ambos são o futuro, mas ainda é cedo.