Esgotado pelas errâncias crepusculares de Al Berto, e pela algidez das suas madrugadas, subo as escadas a custo e abandono-me num banco do jardim. Calado fico meia hora a ver passar o mundo, a ruminar no que vejo.
Afinal há um segredo no gesto de estar vivo. É acreditar que vale a pena, e seguir. Seguir sempre, atrás dos outros. Mesmo sem acreditar que vale a pena.
sábado, 20 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
da capo - 9
PAÍS PARTIDO
Portugal teve um estado, antes de ser uma nação. Teve um esqueleto, antes de ganhar corpo. E quando começava a ganhá-lo, deslocalizaram-no para a Índia. Desacertou o passo e agora é o que se vê. Um país partido em dois países.
Um ficou com a história, mas perdeu o futuro. Arqueja debaixo dela. O outro é o país do sucesso, alheado do passado, bêbado de ilusões. Um esbraceja para escapar à penúria. O outro agita-se sem destino, como as formigas doidas. Nenhum entende o outro, e ambos mutuamente se desprezam.
O enterro dos dois será no mesmo dia. Até lá, há quem ganhe com isso. Conforme sempre foi.
Portugal teve um estado, antes de ser uma nação. Teve um esqueleto, antes de ganhar corpo. E quando começava a ganhá-lo, deslocalizaram-no para a Índia. Desacertou o passo e agora é o que se vê. Um país partido em dois países.
Um ficou com a história, mas perdeu o futuro. Arqueja debaixo dela. O outro é o país do sucesso, alheado do passado, bêbado de ilusões. Um esbraceja para escapar à penúria. O outro agita-se sem destino, como as formigas doidas. Nenhum entende o outro, e ambos mutuamente se desprezam.
O enterro dos dois será no mesmo dia. Até lá, há quem ganhe com isso. Conforme sempre foi.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
da capo - 8
PAÍS LITORAL
Os portugueses mudaram-se para a costa. Tanto ouviram contar histórias de marinheiros, que agora só se querem nas dunas. Alguns mesmo na rebentação.
As marés é que vão ganhar com isso. Em qualidade e volume dos destroços.
Os portugueses mudaram-se para a costa. Tanto ouviram contar histórias de marinheiros, que agora só se querem nas dunas. Alguns mesmo na rebentação.
As marés é que vão ganhar com isso. Em qualidade e volume dos destroços.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Tabuleta
Aqui se têm publicado, e se continuarão a publicar, alguns textos que já viram a luz noutros lugares.
Dois são os motivos para o fazer. Primeiro para os tanger ao lugar que lhes incumbe. Segundo porque assim ficam à disposição de eventual leitor que os não conheça. E como todos sabemos, há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende...
Dois são os motivos para o fazer. Primeiro para os tanger ao lugar que lhes incumbe. Segundo porque assim ficam à disposição de eventual leitor que os não conheça. E como todos sabemos, há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende...
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
da capo - 7
TUDO PELA PÁTRIA
Manuel Passos é homem para sessenta. - Mais um pouco! - concede ele, a silvar a dentadura. Há trinta anos regressou de Angola e deixou passar o tempo. Logo que o génio lhe deu algum sossego, arranjou a caixa dos apetrechos. E quando está de maré vem abancar no Rossio, os olhos cheios de paisagens africanas. Toma o lugar do cliente, encosta-se à parede da farmácia, e fica-se a olhar os restos do império, que ainda passam.
Traz no braço dois obuses tatuados, pequeno espólio do servíço militar.
GAC 2 - Tudo pela Pátria - 1968
E ao mesmo tempo que vai puxando o lustro, olha de lado um africano enorme, que lá vai, de braço dado, com a sua matrona branca.
- Cada um com o seu é que estaria bem! Branco a branco, preto a preto! Mas cada um sabe da sua vida!
A matrona e o africano pararam no passeio, a quezilar com um patrício inconformado.
- A cabeça é o ponto fraco deles, vê-se na porrada e nos estudos. Não são dados a inventar, ficam-se pelo que ouviram. E nunca se atiram de cabeça!
As lembranças que me sobraram da guerra desmentem-lhe a teoria. Mas alimento a conversa e tomo notas.
- Isso é para quê, diga lá?!
- Para nada! É tudo pela Pátria!
O Passos põe-se a olhar os canhões que traz no braço. E sorri-me, displicente, já andava esquecido deles.
Manuel Passos é homem para sessenta. - Mais um pouco! - concede ele, a silvar a dentadura. Há trinta anos regressou de Angola e deixou passar o tempo. Logo que o génio lhe deu algum sossego, arranjou a caixa dos apetrechos. E quando está de maré vem abancar no Rossio, os olhos cheios de paisagens africanas. Toma o lugar do cliente, encosta-se à parede da farmácia, e fica-se a olhar os restos do império, que ainda passam.
Traz no braço dois obuses tatuados, pequeno espólio do servíço militar.
GAC 2 - Tudo pela Pátria - 1968
E ao mesmo tempo que vai puxando o lustro, olha de lado um africano enorme, que lá vai, de braço dado, com a sua matrona branca.
- Cada um com o seu é que estaria bem! Branco a branco, preto a preto! Mas cada um sabe da sua vida!
A matrona e o africano pararam no passeio, a quezilar com um patrício inconformado.
- A cabeça é o ponto fraco deles, vê-se na porrada e nos estudos. Não são dados a inventar, ficam-se pelo que ouviram. E nunca se atiram de cabeça!
As lembranças que me sobraram da guerra desmentem-lhe a teoria. Mas alimento a conversa e tomo notas.
- Isso é para quê, diga lá?!
- Para nada! É tudo pela Pátria!
O Passos põe-se a olhar os canhões que traz no braço. E sorri-me, displicente, já andava esquecido deles.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
da capo - 6
TABACARIA
Ela, mascando a chicla de boquinha aberta, os óculos arrumados no toucado. Ele, a bermuda abaixo do joelho, de barriga precoce a desabar.
Ela vai à escola de Comunicação Social, ele à Sociologia.
- Tás a ver?! Álvaro de Campos! Não gostas?
- Quê, o das odes?! Não, eu sou mais o outro, o Caeiro! É mais coisa!
Ontem, na festa, ele bebeu, gritou, curtiu o homem do chapéu. Ela apenas riu muito, pulou, os braços a adejar.
Ambos são o futuro, mas ainda é cedo.
Ela, mascando a chicla de boquinha aberta, os óculos arrumados no toucado. Ele, a bermuda abaixo do joelho, de barriga precoce a desabar.
Ela vai à escola de Comunicação Social, ele à Sociologia.
- Tás a ver?! Álvaro de Campos! Não gostas?
- Quê, o das odes?! Não, eu sou mais o outro, o Caeiro! É mais coisa!
Ontem, na festa, ele bebeu, gritou, curtiu o homem do chapéu. Ela apenas riu muito, pulou, os braços a adejar.
Ambos são o futuro, mas ainda é cedo.
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