Alvoroçado também com os destinos da pátria, meti-me á chuva e fui à bruxa da Relva, à meia-noite em ponto estava lá. Ela vê futuros nas entranhas dum coelho, mas confessou-me que prefere o bravo. Como a caça me não tem corrido bem, levei num saco o gatito cá de casa, custou-me o coração. Mas ele, velho amigo da família, aceitou o contratempo.
Ela abriu-me a contragosto, ensonada e descomposta, na combinaçãozita amarrotada. Acendeu as velitas do oratório, murmurou uns latins ao seu Sousa Martins, e mandou que me sentasse no banquito.
Estendeu num jornal as tripas do pobre gato, e sem outros prolegómenos foi direitinha ao assunto. Que o Costa ia fazer dois acordos em vez de um. Que os olhos da Catarina iam perder a primavera deles e era pena. Que o comité central encontrara outra vez o palácio de inverno, já andava a juntar as tropas, ia partir ao assalto e pôr tudo em pratos limpos. Que o Assis ia reunir um grupo excursionista na Mealhada, numa sala que lá tem o Pedro dos Leitões. Que o mesmo Assis andava a marcar terrenos, para ser o novo chefe do PS. Que a Maria de Belém ia voltar a ter cabeleireiro por conta, e um BMW de vidraças fumadas, e um motorista jeitoso de boné, que trazia sempre Ferrero numa gaveta, e fazia muitas vénias aos caprichos de madame. Que o Passos estava pronto para chefiar um governo de gestão por meses. Que o Portas andava todo contente, porque mantinha no governo o lugar dois. Que daqui por meses voltavam as eleições, e o PPD ia erguer-se das ruínas, e ganhava por larga maioria. Que o Costa do BPN ia bater a bota, e levava no caixão as culpas todas da roubalheira de tantos. Que as desgraças do Salgado iam explicar ao povo por que era indispensável pagar ainda mais impostos aos "nossos credores" e continuar na penúria habitual. Que os figurões das agências são gaviões do Penedo Durão, e salivam facilmente quando lhes cheira a juros e a carniça. Que a pátria se tinha resignado e trotava a pé para Fátima, na berma das estradas onde havia sempre atropelados pela fezada. Que os retornados iam reunir-se quarenta anos depois, e haviam de se livrar dos velhos desesperos e aceitar o destino, e entenderiam finalmente que Angola não era nossa, era dos pretos dela, e que a história os tinha levado ao engano. Que a Maria havia de encerrar a marquise do Possolo, porque o marido venerando ia recolher-se à quinta da Coelha, não antes de repetir - mas eu já tinha avisado! bem fiz eu em avisar! Que os tipos da troika abririam umas garrafas que lá têm, para enfim saborearem o Chandon. Sobre o Sócrates não arriscou nada, que ele há tipos que são muito difíceis, não se adaptam às visões das tripas. Disse-me aquilo e sorriu, sardónica e já cansada e ensonada. Mas que a pátria havia de sossegar, e havia de deixar de suspirar, e havia de voltar ao sono antigo, muito composta nos crepes do caixão. E que até a minha factura estimada da EDP havia de baixar, e que a chuva lá fora já começava a escampar. Assim foi, vi-o na rua.
Meti-me no velho panzer, engrenei uma segunda, e pus em marcha a descer a ladeira, que o raio da bateria anda nas últimas. E acelerei para a camita.
Amanhã bem cedinho vou à vila, a ver se leio o Correio da Manhã. Pior para mim vai ser aturar o orelhudo da televisão, que vai outra vez piscar-me o olho e escrever ainda mais romancinhos que eu terei que suportar. Talvez me salve a grande sabedoria do vizinho camponês, no seu linguajar rústico e letal, quando falamos da pátria: m'amigo, quem não tem cu não se meta a paneleiro!