«(...) Não percebo o que se passa hoje nas cabeças das pessoas. Tudo, na consideração da arte, é passível de nivelamento? Um fado cantado pela Amália representa o mesmo nível de conseguimento artístico que um Lied de Arnold Schönberg cantado por Dietrich Fischer-Dieskau? Se eu verbalizar a minha veneração absoluta pela Pietá de Miguel Ângelo têm obrigatoriamente de me vir falar dos bordados da Joana Vasconcelos? (...)
Claro que há o gosto a que cada um tem direito - isso não deve ser contestado; eu quero que todos gostem daquilo de que gostam. A arte existe para dar felicidade. Mas o facto de cada um ter o direito de gostar daquilo de que gosta é uma coisa: a existência do Sublime é outra. (...)».
[Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Cotovia)
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Madrugada redentora
Ninguém constrói o seu templo com barro dos vizinhos. É assim que Gouveia celebra o centenário de Virgílio Ferreira, que nasceu na aldeia serrana de Melo.
V. Ferreira deixou à literatura dois romances de épocas diferentes: a Manhã Submersa, inicial, de que o Lauro António fez um belo filme, e a Aparição, mais tardia, que tem lugar em Évora. O resto é um bom exemplo de umbigo inflacionado, agindo em contra-corrente, com escritos múltiplos que moram no bairro da literatura e não no são (a Conta-Corrente, a Sandra, que sei eu?): os existencialistas, o nouveau-romain, o Robbe-Grillet, indiferentes todos ao naufrágio do povo, cujos heróis verdadeiros morriam torturados nos aljubes da pide, em luta pelas oito horas no latifúndio e pela dignidade.
Eu oiço os conferencistas com muita tolerância. Rio-me do mundo e dos intelectuais que se dirigem aos leitores lendo textos maçudos e prolixos, com dicções inaudíveis e improvisadas em que se perde metade da mensagem. E acabo a restaurar-me com um almocinho no Júlio de Gouveia, que há 50 anos era bandeira da gastronomia serrana na feira popular de Entrecampos.
Ainda hoje guarda nas paredes do estanco as fotos das chaimites do Salgueiro Maia, numa madrugada redentora que aí houve. Era forçoso que houvesse!
V. Ferreira deixou à literatura dois romances de épocas diferentes: a Manhã Submersa, inicial, de que o Lauro António fez um belo filme, e a Aparição, mais tardia, que tem lugar em Évora. O resto é um bom exemplo de umbigo inflacionado, agindo em contra-corrente, com escritos múltiplos que moram no bairro da literatura e não no são (a Conta-Corrente, a Sandra, que sei eu?): os existencialistas, o nouveau-romain, o Robbe-Grillet, indiferentes todos ao naufrágio do povo, cujos heróis verdadeiros morriam torturados nos aljubes da pide, em luta pelas oito horas no latifúndio e pela dignidade.
Eu oiço os conferencistas com muita tolerância. Rio-me do mundo e dos intelectuais que se dirigem aos leitores lendo textos maçudos e prolixos, com dicções inaudíveis e improvisadas em que se perde metade da mensagem. E acabo a restaurar-me com um almocinho no Júlio de Gouveia, que há 50 anos era bandeira da gastronomia serrana na feira popular de Entrecampos.
Ainda hoje guarda nas paredes do estanco as fotos das chaimites do Salgueiro Maia, numa madrugada redentora que aí houve. Era forçoso que houvesse!
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Injustiças
Sempre houve muitas, esta é mesmo ...
O miau
1 Sou um miau, e sou
mau; faço o que me apetece e
se quero sair mio diante da porta,
e se quero entrar mio do outro
lado da porta; e se quero comer
me roço nas pernas de rabo
empinado num andar animado
pela perfídia e calculismo.
2 mas quando me não
prestam atenção vou para a
cozinha deitar ao chão copos e
tachos, e se não me enxotarem
defeco nos despachos de cada
habitante revoltante da minha casa;
ou na cama, ou no armário
- não têm como escapar deste
instinto primário que domesticou
os donos que se julgam tão
sofisticados como eu. rinhau
3 sou assim, e sou ruim; deixam-me
arranhar as crianças sem
me bater, bufo a quem
e quando me apetecer;
arranco pedaços ao sofá,
estendo-me como um paxá
desprendendo um rasto de
pêlos e puns
4 e secretamente, muito
secretamente transformo quem
me acarinha num berço que aninha
um assassino devorador de ratos
e toupeiras, pássaros e lagarteiras,
insectos insurrectos, todo o tipo
de vida que não se lamenta quando
cai na minha garra sangrenta que
depois é lavada como se não fosse
nada
[Rodrigo, Lambda 1/12, 2016]
O miau
1 Sou um miau, e sou
mau; faço o que me apetece e
se quero sair mio diante da porta,
e se quero entrar mio do outro
lado da porta; e se quero comer
me roço nas pernas de rabo
empinado num andar animado
pela perfídia e calculismo.
2 mas quando me não
prestam atenção vou para a
cozinha deitar ao chão copos e
tachos, e se não me enxotarem
defeco nos despachos de cada
habitante revoltante da minha casa;
ou na cama, ou no armário
- não têm como escapar deste
instinto primário que domesticou
os donos que se julgam tão
sofisticados como eu. rinhau
3 sou assim, e sou ruim; deixam-me
arranhar as crianças sem
me bater, bufo a quem
e quando me apetecer;
arranco pedaços ao sofá,
estendo-me como um paxá
desprendendo um rasto de
pêlos e puns
4 e secretamente, muito
secretamente transformo quem
me acarinha num berço que aninha
um assassino devorador de ratos
e toupeiras, pássaros e lagarteiras,
insectos insurrectos, todo o tipo
de vida que não se lamenta quando
cai na minha garra sangrenta que
depois é lavada como se não fosse
nada
[Rodrigo, Lambda 1/12, 2016]
domingo, 29 de janeiro de 2017
Transformar quem a lê!
«A literatura não serve obviamente de nada a não ser que sirva para alguma coisa. E se serve para alguma coisa, é para transformar quem a lê. O leitor que chega ao fim de O Livro do Desassossego exactamente igual à pessoa que era quando começou a ler a primeira página, é alguém a quem a leitura não serviu de nada.
O que queremos da literatura é o que queremos da vida: queremos que nos transforme. Não quero chegar ao dia 1 de Janeiro do próximo ano igual à pessoa que era no dia 1 de Janeiro do ano anterior. (...)»
[Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Ed. Cotovia, Lisboa 2015]
O que queremos da literatura é o que queremos da vida: queremos que nos transforme. Não quero chegar ao dia 1 de Janeiro do próximo ano igual à pessoa que era no dia 1 de Janeiro do ano anterior. (...)»
[Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste, Ed. Cotovia, Lisboa 2015]
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