segunda-feira, 24 de março de 2025

As Aves 5-8

Mas os filões do sertão haviam de exaurir-se, e um dia o Brasil tornou-se independente, com grande consternação geral. Assim desamparado, passou o reino a viver de mão estendida, governado por estrangeiros, ao sabor dos encontrões da história, igual a uma torrente que as leis da natureza impedem de estancar, e do alto do monte se despenha aos trambolhões. De mãos vazias, quando as deviam ter carregadas de vergonha, os poderosos do reino puseram-se a alimentar de lendas a escudela do povo, a entreter-lhe a alma com epopeias de bruma, a ofuscar-lhe os olhos com glórias de artifício, como se faz aos touros nas arenas. Entretanto burgueses do comércio foram tomando o lugar duma aristocracia degenerada e frouxa, desempregada dum império que há séculos inventara, e que não chegou a existir. Sonhavam só com uma noiva fidalga, com o aluguer dum título, com a pechincha dum brasão, para ascenderem ao baronato. O resto era um país de heróis do mar, a divagar entre quimeras, a consolar o ouvido com ecos de miragens, e a bradar às armas por esplendores de antanho.

Mais porque os meteram à força nos navios ingleses do que por acreditarem em tais brados, é que milhares de portugueses acabaram imolados nas trincheiras da guerra da Flandres, onde ninguémos chamou, onde ninguém os queria, ou vieram a morrer perdidos nas aldeias, dos peitos que trouxeram rebentados dos gases das granadas. Mas a maldição da Índia mantinha-se em vigor, e era preciso salvar as colónias africanas da cobiça europeia. Verdadeé que só os degredados lhes sabiam dizer o paradeiro, mas foi delas que a hidra passou a alimentar-se, com redobrada sofreguidão.

Gaspar ia ouvindo o companheiro sem pestanejar, já repeso de apressados julgamentos, dos juízos levianos que escutámos. A tão pouco se resume o drama português, que há muito tempo assim é e agora vemos repetido. Aos que tocam a guitarra falta a unha, a quem tem unha interdita-se a guitarra. Ganham os tocadores de rabecão. E com estes pensamentos questionava Gaspar a rudeza duma frase, a segurança duma afirmação. No íntimo, porém, a entender finalmente a imagem fatal do plano inclinado, por onde o país há séculos deslizava, no íntimo a entender que a guerra das colónias fora um maldito fadário inelutável, que só uma final rebelião podia ter quebrado. 

Geneviève tornou à sua. Por certo houvera em todo o reino algumas vozes críticas, quis saber por que ninguém afrontara o destino, durante tantos séculos. Concordou Gabriel que as tinha havido sempre, múltiplas e lúcidas, agudíssimas vozes de poetas, de metres e diplomatas, de alguns fidalgos e até príncipes da corte. Mas vozes insubmissas acabaram sempre em Portugal penduradas num prego atrás da porta, que é onde se enforcam os trastes sem valor, ou afogadas na poeira húmida de sótãos e masmorras. A começar pelo próprio Camões, que sem remorso foi deixado a morrer na indigência, antes de fazerem dele o símbolo da pátria. Ao longo dos tempos, todas as castas poderosas lhe usaram a épica voz para dar vida aos mitos de que se alimentaram, escondendo-lhe, porém, o verbo crítico, da estulta e fatal temeridade, da cupidez corrupta, da rudíssima e torpe ignorância, e por fim da mísera condição de abandono da pátria, caída em apagada e vil tristeza.

E outros houve, ao longo de séculos, que fizeram à pátria perguntas que ficaram sem resposta, e com ele irradiaram uma luz vivíssima, e acabaram na fogueira, ou na masmorra, ou no exílio, para sossego do trono e do altar. Em nome da pátria, os poderosos devoraram sempre os mais sabedores de todos, os mais insubmissos e os mais lúcidos, os Damiões de Góis e os Teives humanistas, os Vieiras e os Cavaleiros de Oliveira, os Verneys e os Ribeiros Sanches, e até os duros Pombais, quando existiram, os estrangeirados iluministas, os liberais malhados, os republicanos maçons, os socialistas utópicos, os Jesus Caraça e os Azevedos Gomes, os Rodrigues Lapa e os Pulidos Valente, as Marias Lamas e os Jorges de Sena e os Luíses Gomes, e outros quantos, nem um célebre bispo do Porto escapou. (Cont.)