sábado, 14 de março de 2026

Bajo los tilos

A geografia não o diz abertamente, porque não quer a história badalada. Mas a avenida Unter den Linden em Berlim é a mais comprida do mundo. Vai desde a Pariser Platz até chegar ao cavalo de Frederico II, lá ao fundo. Uma jornada esgotante.

A primeira vez que a vi, chamava-lhe Gabi Bajo los Tilos. Mas as tílias da avenida eram pequenas e decepcionaram-me. Tinham sido plantadas há uns anos, que as mães delas foram levadas pelo povo, para se aquecer no meio das ruínas do desgraçado inverno de 46.

A última vez que as vi já eram bem redondas. E hoje estarão imponentes, não sei bem, há muito que as não vejo.

Oxalá tenham voltado à majestade antiga. Não vá o povo outra vez precisar delas, para acender uma velha fogueira entre ruínas novas.

terça-feira, 3 de março de 2026

O Roque e a amiga

Estão ambos ali ao cimo da avenida, há um ror de tempo, a quezilar. Nos dias de calor sonham com o lençol do rio, que passa lá ao fundo. Sempre traz uma frescura e lembra-lhes o mar, e o mundo para além dele. Fora disso contentam-se com a baixa pombalina, que lhes dormita aos pés.

Um tem formação romântica e um espírito clássico. Recolhido nas abas do capote, hierático e definitivo, parece um rei de pedra, dos antigos. Bem pode o mundo quebrá-lo mas não o torcerá, porque a razão não deixa.

O outro tem formação clássica e um espírito romântico, e uma alma que não se lhe confina às arcadas do peito. Traça no ombro a capa esvoaçante e avança para o mundo de cabeça erguida, de barbicha à dandy, gaforina ao vento. O génio todo está no sentimento.

Sempre que ali passo bato-lhes à aldraba e empurro a cancela. Para saber quando resolvem a contenda.