domingo, 14 de julho de 2019

O último maçarico-esquimó 19


Durante cinco meses um impulso insaciável tinha espicaçado o maçarico e as tarambolas. Temporariamente enfraquecera, sem nunca ter desaparecido. Mas agora morria. Uma estranha letargia apoderava-se das tarambolas. Bastava-lhes alternar entre duas lagoas salgadas. Comiam, devaneavam, flanavam sem gosto por ali, como actores que se haviam esquecido do texto e esperavam por uma deixa, por um impulso instintivo que lhes dissesse o que fazer.
            O próprio maçarico estava livre da pressão do impulso migratório. E no entanto atormentava-o um desassossego, uma antiga e indizível fome, uma velha solidão. Ocorreu-lhe de súbito que estava sozinho, num mundo onde não tinha companheiros de espécie. Tentou levar as tarambolas a continuar a migração, mas elas não o seguiram. Finalmente não pôde mais controlar a inquietação. Elevou-se no ar e alargou os seus círculos sobre a lagoa onde as tarambolas esgaravatavam alimento. Chamou-as repetidamente em altos gritos, mas elas não responderam. Então o maçarico tomou a direcção do Leste, lá onde estava o mar, bem o sabia, à distância de muitas horas de voo. Estava de novo em viagem, e sozinho.
            Na Patagónia não havia solo fértil, como nas Pampas. O terreno era composto sobretudo de saibro e de cascalho, misturado com rochas vulcânicas de pontas aguçadas. A vegetação era diminuta, e o sol mordente do Verão tingira de castanho as escassas manchas de capim e de cardos. As tarambolas abandonaram esta região inóspita e voaram para Leste, à procura dos charcos da costa, mais frescos e cheios de alimento.
            Aqui verifica-se um dos maiores desníveis de maré do mundo, e por isso, na maré baixa, quilómetros de solo ficam a descoberto. Duas vezes por dia o mar arroja para terra todo o tipo de despojos. Alimento nunca falta, e enormes bandos procuram estes baixios. A maior parte são tarambolas-douradas, mas também há pernas-amarelas, com os seus torsos luminosamente claros. As galinholas e os pequenos pilritos evitam, pressurosos, a rebentação, como se tivessem medo de molhar os pés.
            O maçarico vagueava de bando para bando, procurava incansavelmente, sem saber exactamente o quê. Com o seu longo bico encurvado e a grande envergadura de asas, sobressaía claramente entre os muitos milhares de pequenas narcejas.
            Janeiro chegara. E a longínqua tundra canadiana, a catorze mil e quinhentos quilómetros de distância, seria ainda durante alguns meses a adormecida terra fria das tempestades de neve e das noites sem fim. Mas o maçarico sentia já o chamamento do Árctico, uma suave emoção interior, um pequeno sinal. As suas gónadas em breve começariam a produzir hormonas, um novo ciclo anual aproximava-se. A princípio era quase imperceptível, mas o processo foi-se tornando lentamente mais forte. Era um sentimento que se distinguia do impulso migratório do Outono. Partir para o Sul tinha sido uma vaga impaciência, sem fim definido. Mas agora só o objectivo contava. A migração era um fenómeno acidental e acessório. O que ele sentia era essencialmente a ânsia, a saudade de casa. Conhecia perfeitamente o destino, não só o Árctico e a tundra, mas o amontoado de cascalho, à beira da curva do rio. Aí havia de chegar também a fêmea, aí havia de ser o ninho.
            E o maçarico pôs-se a caminho de casa. Seguia de charco em charco, e não fazia grandes trajectos. A indecisão tinha passado. Voava sempre para Norte. Também as outras narcejas sentiam o mesmo, estavam sempre em movimento. O número e a espécie das aves nos charcos mudava de hora a hora. Uma semana depois o maçarico encontrava-se trezentos quilómetros mais a Norte.


O CORREDOR DA MORTE

            Em anexo ao relatório anual do Instituto Smithsoniano, deve acrescentar-se algo sobre determinadas descobertas científicas. As participações vêm de colaboradores da casa...
            O maçarico-esquimó e o seu desaparecimento (reedição, revista pelo autor, Myron H. Swenk, dos debates da Sociedade Ornitológica do Nebraska, de 27 de Fevereiro de 1915).
           
            Todos os ornitólogos informados concordam entretanto que o maçarico-esquimó (Numenius borealis) está ameaçado de extinção. Muitos acreditam mesmo que as poucas aves que ainda existem não são suficientes para a renovação dos efectivos. Consideram-no como uma espécie que pertence praticamente ao passado. Se partirmos de situações análogas, parece legítimo este pessimismo. Talvez a história do maçarico-esquimó, parecida com a do pombo-torcaz, constitua mais uma daquelas tragédias ornitológicas que sucederam na segunda metade do séc. XIX. Devido aos abates incontrolados e irracionais, reduziram-se os efectivos norte-americanos de aves. Várias espécies largamente difundidas, como se vê pelos gigantescos bandos, foram quase ou totalmente aniquiladas...
(Cont.)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O último maçarico-esquimó 18


7

            As tarambolas-douradas e o maçarico-esquimó ficaram duas semanas no Orinoco e depressa voltaram a engordar. Milhares de outras narcejas povoavam as pradarias, tarambolas que também tinham feito a longa viagem sobre o oceano, e ainda uma dúzia de outras espécies que tinham voado sobre terra, através das planícies da América do Norte e do istmo do Panamá. Aqui encontravam-se de novo, nos Llanos da Venezuela. Também havia esplêndidas aves dos trópicos, que nidificavam nesta altura e alimentavam zelosamente os filhos. Os ninhos das garças-brancas cobriam largas superfícies dos pântanos, junto ao rio, e as garças eram tantas que se empurravam umas às outras. A íbis vermelha, jóia das aves tropicais, voava em bandos ao longo das margens, procurando alimento. De início, quando as íbis se aproximavam, pareciam sombras cinzentas; ao passarem perto, inflamava-se-lhes a plumagem vermelha; quando se afastavam, a cor desvanecia-se novamente.
            Havia comida em abundância e muitas das narcejas árcticas deixavam-se ficar por aqui. Mas o maçarico e as tarambolas, após duas semanas em que comeram e acumularam gordura, voltaram a sentir o velho impulso que as empurrava para Sul. As outras tarambolas já tinham partido. Tal como no Lavrador, o bando do maçarico foi o último a largar.
            No princípio de Outubro, numa noite clara de luar, levantaram voo e seguiram um vale afluente do Orinoco, até ele se perder nas montanhas que separam as bacias hidrográficas do Orinoco e do Amazonas. Então desceram um pouco e sobrevoaram o vale de um afluente do Amazonas. Seguiram a estreita fita de água para Sul, e tinham atingido o poderoso rio quando a manhã chegou. Deste lado do equador, os ventos alísios sopram de Noroeste para Sueste. Para ter vento de lado, o bando seguiu, durante a noite, a direcção de Sudoeste, em vez de se dirigir directamente para Sul. Voaram 800 quilómetros, e ao romper do dia tinham à vista os Andes peruanos, com os seus cumes cobertos de neve. Na orla sul da zona dos alísios o vento soprava de Leste, e nas três noites seguintes dirigiram-se para Sueste. À quinta manhã as aves estavam de novo magras e cansadas. Poisaram nas Pampas argentinas, quatro mil quilómetros a sul dos Llanos da Venezuela.
            A Primavera tornara verdes o capim e os cardos gigantes, e havia gafanhotos aos enxames. As aves comeram durante todo o dia, alimentando-se dos insectos nas ervas rasteiras. Por vezes procuravam zonas mais fundas, onde o chão era pantanoso e o capim crescia mais forte. Aqui viviam insectos aquáticos, que enriqueciam a alimentação, tornando-a variada. E elas prosseguiam caminho frequentemente, sem nunca fazerem longas etapas. Tinham perdido as rémiges maltratadas, as quais deram lugar a outras novas. E em breve as asas ganharam de novo a sua antiga força.
            Estavam agora a treze mil quilómetros de distância dos locais de nidificação no Árctico. Para além delas, só os pernas-amarelas, pilritos-dos-prados e muito poucas aves tinham empreendido tão longa viagem. No entanto o impulso migratório continuava a empurrar o maçarico e as tarambolas para Sul. Nas noites claras, quando fortes ventos de Oeste varriam as Pampas, criando boas condições de voo com vento lateral, o bando atacava de novo os ares. Horas depois estavam duzentos ou trezentos quilómetros mais a Sul, e por um momento acalmava a sua inquietação. O maçarico conduziu o bando até ao cimo de uma colina enluarada. As tarambolas seguiram-no e esperaram aqui pela manhã.
            Assim foram avançando para Sul. Quando o sol quente de Dezembro secou os cardos, e a erva das Pampas ficou da cor da prata devido à quantidade de flores que baloiçavam, ligeiras, ao vento, eles encontravam-se já nas planuras ondulantes da Patagónia, a uma noite de voo dos mares da Antárctida. Com uma força hercúlea, o instinto migratório tinha-os empurrado desde o longínquo Norte até ao lugar mais a Sul do continente americano. E também aqui havia grandes bandos de narcejas. De todos os animais da terra, só a andorinha-do-mar-árctica, voando distâncias semelhantes, pode contemplar tanta luz e tanto sol como as narcejas. Ano após ano, elas correm acima e abaixo, entre as terras do sol da meia-noite, quase de polo a polo.
(Cont.)

sábado, 6 de julho de 2019

O último maçarico-esquimó 17

A noite estava escura como breu. Até que a manhã rompeu finalmente, não com amarelos e vermelhos, mas com uma luz turva e cinzenta. Por baixo deles a terra era húmida e lamacenta, atravessada por rios largos, como a tundra na Primavera. Tão longe quanto podiam ver, na luz cinzenta da manhã, estendia-se em todas as direcções o extenso vale do Orinoco. E continuava a chover.
            O bando tinha voado quase sessenta horas seguidas, sem descanso nem alimento. Das terras da neve e da luz árctica, chegavam agora a um lugar que ressumava da exuberante vegetação dos trópicos. Diante deles havia centenas de quilómetros de terras pantanosas e de planícies cobertas de capim. Era um formigueiro de insectos, alimento mais que suficiente, que só os meses de chuvas contínuas dos trópicos podiam produzir.
            O dia ficara um pouco mais claro. E o maçarico abriu as asas rígidas e mergulhou em picada. Deixara para trás a vastidão dum continente, desde a última vez que elas tinham estado inactivas. As tarambolas seguiram-no e o bando poisou.
            Nenhuma ave descansou, porque antes de mais era preciso comer. Durante cinquenta e cinco horas tiveram os estômagos vazios, tinham voado quase cinco mil quilómetros e consumiram toda a gordura acumulada no Lavrador. Dela não restava agora um único grama. Em menos de três dias, as aves tinham perdido entre 10 a 15 por cento do seu peso. Só o facto de elas serem os mais económicos consumidores de energia de todo o reino animal lhes possibilitava tal voo. Para atravessar o oceano, cada ave tinha queimado sessenta gramas de gordura. Com tal consumo de energia, um avião de meia tonelada voaria 250 quilómetros com cinco litros de combustível, em lugar dos habituais trinta e cinco.
            Só descansaram depois de terem comido. Mas nas vastas savanas do Orinoco havia grande abundância de alimento. Assim, antes de cair a noite tropical, as aves comeram ainda uma segunda vez, durante várias horas.


O CORREDOR DA MORTE
            Este é o oitavo boletim do Museu Nacional dos Estados Unidos, sobre a vida das aves norte-americanas, por Arthur Cleveland Bent.
            Ordem: Limicolae. Família: Scolopacidae... Numenius borealis, maçarico-esquimó... Não há dúvida de que foram sobretudo os abates excessivos, durante as viagens migratórias, e durante o Inverno na América do Sul, os responsáveis pela sua extinção. Não acredito que esta espécie tenha sido apanhada no alto mar por uma enorme catástrofe que a tenha dizimado. O maçarico possuía asas poderosas, e podia escapar a grandes tempestades, ou conseguia evitá-las. Além disso a sua época de migração era tão prolongada que uma só tempestade não podia exterminar toda a espécie. Nada aponta para doenças, ou para a redução do seu alimento habitual. Sobra uma única razão. Ele foi aniquilado pelos homens: no Verão e no Outono, no Lavrador e na Nova Inglaterra; no Inverno, na América do Sul; e ainda pior que tudo, na Primavera, desde o Texas até ao Canadá. Os maçaricos eram tão mansos e confiantes, tão apegados aos seus companheiros de viagem, que foram abatidos em massa, vítimas fáceis da carnificina. Estas delicadas aves deixavam atrás de si, por todo o lado, um verdadeiro corredor da morte. E ninguém mexeu um só dedo para as defender, até ser demasiado tarde...
(Cont.)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O último maçarico-esquimó 16


Quando a noite chegou já tinham atravessado o braço da corrente do Golfo que se dirige para Leste. Encontravam-se agora no meio do Atlântico, numa zona de cinco milhões de quilómetros quadrados, onde nenhuma corrente agita a água salobra e onde bóiam ilhas de algas esponjosas. Estavam sobre o Mar dos Sargaços, o mais estranho de todos os mares. E voavam há vinte e quatro horas sem descanso.
            Enormes tapetes de algas castanhas passavam por baixo deles. Quando perdiam altitude, viam os peixes-voadores com as suas barbatanas peitorais semelhantes a asas, lançando-se sobre os rolos húmidos de algas marinhas. Entre elas viviam caranguejos, camarões e caracóis. Em anos passados, por esta altura, já o maçarico tinha avistado os picos baixos do Sear’s Hill, nas Bermudas. Mas desta vez tinham sido afastados muito mais para Leste pela tempestade nocturna. O sol caía no mar sem fim. Quando escureceu, a água cintilava com o brilho claro e frio de milhões de seres fosforescentes.
            O maçarico conduziu o bando em frente, e durante toda a noite voaram a uma altitude de cerca de mil metros. De tempos a tempos, as aves comunicavam entre si através de pequenos gritos. Quando o maçarico seguia no comando, tinha que aplicar todos os sentidos para estar atento aos caprichos do vento e aos impulsos cósmicos. O seu cérebro traduzia estes impulsos num sentido de orientação. E, quando cedia o comando a uma tarambola, voava num estado de semi-sonolência. As asas batiam automaticamente, os olhos mantinham-se meio fechados, e ele seguia o turbilhão da ave precedente quase inconscientemente.
            Nessa noite, a estrela polar e as constelações do Árctico já se perdiam no horizonte. Para os lados do Sul apareciam estrelas novas. Pouco antes do romper do dia o vento tornou-se mais fresco. Soprava de Nordeste, forte, constante e monótono. Tinham atingido a zona dos alísios. Era um vento de bombordo, que lhes acelerava a velocidade nuns bons quinze quilómetros por hora.
            Apesar do vento, o dia estava quente. E por vezes deslizava à superfície da água a sombra azul escura dum tubarão. O bando estava perto dos trópicos, o mar tornava-se cada vez mais azul, e na atmosfera quente formavam-se maciças nuvens cumuliformes, cujas sombras salpicavam a água. Grossos montões de nuvens empilhavam-se, imóveis, no horizonte, a Oeste. Eram marcas de itinerário. Por baixo delas havia ilhas, cada uma com o seu capacete de nuvens, que podiam observar-se muito antes de elas se avistarem. O bando tinha agora diante de si o mar das Caraíbas e as Pequenas Antilhas. E lá à frente, por detrás do horizonte, à distância de doze horas de voo, encontravam-se as selvas e os montes da América do Sul.
            Após trinta e seis horas sobre o mar, os músculos e os nervos começaram finalmente a acusar cansaço. O voo deixou de ser um acto reflexo inconsciente e infatigável. Agora exigia esforço de vontade, e só a concentração determinada na tarefa fazia ainda bater as asas debilitadas. Duas noites e um dia sem alimento tinham afrouxado os processos no corpo das aves, que arfavam no ar quente dos trópicos. Mantinham os bicos abertos, pois tinham que respirar velozmente, para cobrir as necessidades de oxigénio dos pulmões. Três tarambolas novas, que faziam pela primeira vez a longa viagem sobre o oceano, atrasavam-se lentamente. O maçarico reduziu a velocidade, até ao ponto de as aves mais fracas se poderem aguentar.
            Ele sabia que havia ilhas além, a Oeste, por baixo das espessas nuvens do horizonte. Ficavam apenas a uma ou duas horas de voo. Porém, para as alcançar era preciso seguir um rumo em que o vento soprava directamente de cauda. E isso prejudicava o voo, tanto como o vento de frente. Por isso o maçarico mantinha a rota inicial. Ele sabia que havia de passar uma terceira noite antes que chegassem à costa. E se alcançassem terra firme na escuridão, numa noite cerrada e cheia de nuvens, só poderiam poisar quando os contornos dos mangais venezuelanos e das ilhas de areia dos estuários se pudessem desenhar na claridade da manhã.
            O dia demorou muito a passar. Mas finalmente o sol mergulhou no mar das Caraíbas, e rapidamente ficou escuro, quase sem crepúsculo. As nuvens cresceram e ocultaram a lua e as estrelas. Caíram as primeiras gotas, o bando chegava aos trópicos em pleno tempo das chuvas. Era uma chuva ligeira e fina, que refrescava o ar e facilitava a respiração. E assinalava a proximidade da costa.
            Durante duas horas voaram à chuva. O maçarico não podia ver nada, mas reconheceu imediatamente quando deixaram o mar e se acharam sobre terra firme. Primeiro trovejou, no escuro, a rebentação, e logo a seguir surgiram as turbulências das correntes térmicas, a elevar-se do solo quente.
            As aves não podiam senão continuar em frente, hora após hora. E agora, sabendo que por baixo delas se estendia terra firme, o voo tornou-se uma prova de força cruel, e cada batida de asa uma luta atormentada contra a inércia e o esgotamento. Muita energia era agora desperdiçada, uma vez que as rémiges estavam de tal modo estafadas que já não cortavam o ar como pás duma hélice. Tal como o faziam ao princípio, ao deixarem o Lavrador, com batidas ligeiras e fáceis.
            O maçarico sabia que, por trás da faixa costeira com praias e estuários de rios, havia mangais pantanosos. Eles estendiam-se ao longo de 250 quilómetros, e poisar neste emaranhado era tão difícil como fazê-lo no mar alto. Assim, quando clareasse, teriam que continuar a voar em frente, até atingirem os Llanos relvados da Venezuela. As asas tinham-se tornado pesadas, mas o maçarico ganhava altura para poder ultrapassar os montes costeiros. Era um tormento. Atravessaram os montes e o cansaço mantinha-se, crescia de repente em guinadas agudas, e fazia vibrar cada fibra dos seus pequenos corpos.
(Cont.)

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Anarcas

J'ai mis mon quépi a la cage
Et suis sorti avec l'oiseau sur la tête.
-Alors, on ne salue plus? - a dit le comandant.
-Non, on ne salue plus! - a dit l'oiseau.
-Excusez moi, je croyait qu'on saluait!
-Vous êtes excusé! Tout le monde peut se tromper!

(Jacques Prévert)

terça-feira, 2 de julho de 2019

Monos, ensimesmados, tristes

Não estava lá, não vi o que se passou. Mas estranhei quando cheguei a casa e encontrei assim os gatos.
Quando saio deixo-lhes sempre um rádio ligado, não vão sentir-se sozinhos. Mas desta vez o presidente Marcelo andou por essas terras a celebrar a raça. Deu abraços, fez discursos, desenhou hipérboles. Satisfez o povo todo, fora os bichos, que os discriminou. 
Vou deixar o rádio desligado. Porque isto não é coisa que um bom gato possa tolerar.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O último maçarico - esquimó 15


6

            O maçarico sabia que tinham de continuar a voar para Leste, para que o temporal os não apanhasse de novo. Mas isso era um simples reconhecimento factual, que não provocava nenhum sentimento de medo. Já tinha esquecido o pânico do tempestuoso céu de neve, tinha esquecido mesmo as tarambolas afogadas, só se lembrava da tempestade. Na sua memória ela não era um acontecimento horrível e medonho, apenas um inimigo natural com que tinha que contar, e que era preciso evitar.
            Mas o destino do bando era o Sul, e para Leste apenas se estendia o imenso mar vazio. Assim, meia hora depois, o maçarico mudou de rumo e apontou a Sul. Durante cerca de meia hora voaram nessa direcção, até que a frente fria os apanhou de novo. Logo que as primeiras gotas de chuva caíram, o maçarico rodou para Leste, e alguns minutos depois encontrou de novo a atmosfera límpida e tranquila.
            Nas três horas que faltavam para a alvorada tiveram que repetir várias vezes esta manobra. Rumavam para Sul até a chuva os atingir, e viravam a Leste para a manter atrás de si. Voavam precisamente em direcção ao Sul quando um clarão amarelado rasgou o céu sombrio. Amanhecia rapidamente, a escuridão do mar transformou-se num verde frio, mas o sol não nascera ainda. Continuaram para Sul durante uma hora ou duas, o manto de nuvens tornou-se menos espesso, o dia clareou e o temporal não voltou. Mesmo as grossas nuvens cinzentas a Oeste desapareceram e a Leste rompeu o sol, como um archote, através das névoas que se dissolviam. O ar mantinha-se frio, mas em breve só o sol se erguia, no vasto céu azul.
            O bando tinha finalmente ultrapassado a tempestade, rompendo para Sul. O que ainda restava das nuvens geladas da noite diluía-se lá para o Norte, sobre os bancos de pesca da Terra Nova.
            No final da manhã o ar aqueceu, e farrapos de neblinas erguiam-se da água. O céu manteve a claridade azul, mas por vezes o mar ocultava-se atrás dum véu nebuloso. O bando aproximava-se do ponto onde se encontram a corrente fria do Lavrador, que se desloca para Sul, e a corrente quente do Golfo, dirigindo-se para Norte. Aqui, ao largo da Terra Nova, a corrente do Golfo desvia-se para Leste, para o Atlântico Central. Durante uma hora foram atravessando bancos de nevoeiro, até que a vista do mar ficou livre. O verde pálido da água deu lugar ao azul marinho, e as duas cores delimitavam-se tão rigorosamente como o mar e a praia. O bando encontrava-se sobre a corrente do Golfo, que vem dos trópicos. O verde da corrente do Lavrador, último prolongamento do Árctico, desvanecia-se atrás dele.
            As asas batiam mecanicamente, sempre com idêntico andamento, como se não estivessem fatigadas. A atmosfera era cada vez mais quente, pois em cada hora avançavam 80 quilómetros para Sul. E na monotonia do voo só alguma coisa mudava quando planavam cerca de uma hora, perdendo altitude até à flor das ondas. Depois subiam outra vez.
            Visto de perto, descobria-se que o mar, tal como a tundra, só na aparência era deserto e sem vida. As aves passavam ao rés da água, que formigava de vida. Por vezes cintilavam as medusas, ao longo de quilómetros, como discos brilhantes. Cardumes de peixes vinham à superfície, e o sol reflectia-se, metálico, em milhares de corpos prateados. Depois apareciam autênticas nuvens de plâncton, organismos unicelulares microscópicos, cada um deles um minúsculo ponto, colorido e invisível. Mas eram aos biliões, e coloriam quilómetros de mar de um vermelho vivo.
            À superfície da água havia também outras aves, que passam a maior parte da vida a cardar no mar alto. Apenas voam para terra quando o impulso de acasalamento as chama. Paínhos-mergulhadores, de patas coloridas, esvoaçavam por ali como borboletas, e precipitavam-se entre as ondas. Os seus vultos faiscavam como reflexos minúsculos, e sem descanso procuravam alimento, pequenos crustáceos e plâncton. Aves aquáticas que tinham nidificado na tundra, no meio das narcejas suas parentes, tinham regressado ao mar, em cuja solidão se manteriam até à próxima época de criação. Casualmente passava um grande albatroz, com as suas braçadas escuras e tranquilas, a aproveitar habilmente a impulsão criada sobre as cristas das ondas, pelos movimentos da água. Mas aqui tratava-se de verdadeiras aves marinhas. O mar alimentava-as e concedia-lhes repouso quando as asas ficavam fatigadas, pois podiam nadar tão perfeitamente como voavam.
            O maçarico e as tarambolas só podiam voar, voar e voar, adiando o descanso e o alimento, até atingirem terra firme.
(Cont.)

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 14


As costas da Nova Escócia e da Nova Inglaterra estavam já a várias horas de distância, atrás do nevão impenetrável. À sua frente, quem sabe se apenas a alguns minutos, estava a atmosfera mais quente e mais tranquila, para lá da tempestade. Porém, mesmo depois de ultrapassarem a frente fria, tinham que continuar a voar na direcção do mar sem fim, para evitar as nuvens geladas que agora os empurravam impiedosamente, cada vez mais perto da crista das ondas. O maçarico sabia disso, não por reflexão mas por comportamento instintivo. Por uma vaga inspiração que lhe dizia também estar algures uma fêmea à sua espera, quando os musgos e os líquenes da tundra ficassem verdes de novo, e o tempo do acasalamento voltasse.
            O maçarico possuía músculos peitorais e tendões bem mais fortes do que as pequenas tarambolas. Mas agora doíam. Mesmo a ele, custava-lhe um extraordinário dispêndio de energia vencer a dificuldade trazida pela neve incrustada nas asas. Uma vez que perdiam altitude, atingiram de novo as camadas de ar inferiores, instáveis e agitadas. A formação rompeu-se, mas as aves continuaram juntas, fazendo-se ouvir por altos gritos. Cada ave estava sozinha num mundo de vento e neve, e só este gorjeio fremente as ligava umas às outras.
            Durante longo tempo voaram no ar frio, sem poderem observar a rota. O maçarico procurou manter a altitude, até os músculos do peito e as fibras todas do corpo lhe vibrarem de dor e de cansaço. Ao gorjeio das tarambolas juntou-se em breve um assobio agudo, cada vez mais forte. Era o ruído da neve estalando na água.
            Então o maçarico conseguiu ver através da cortina branca. Vagas de crista prateada apareciam à sua frente, cresciam espumando e desapareciam lá atrás. O nevão abrandou e as tarambolas podiam ver-se de novo. Voavam ao acaso, atrás do maçarico, e as mais fracas iam ficando para trás. Estavam mais próximas da água, pois tinham que sacrificar ainda mais altitude para poderem acompanhar as mais fortes. A neve colava-se-lhes às pontas das asas. E, mal se derretia com o calor do corpo, logo outra se acumulava.
            O maçarico voou alguns segundos na horizontal, e logo o andamento baixou. Teve que descer, para ganhar velocidade e outra vez altitude. Podia agora ver claramente o mar, onde as cristas brancas das ondas se erguiam da água escura. Às vezes uma vaga erguia-se tão alto, que só por um ou dois metros não atingia as aves em luta.
            Uma onda gigante elevou-se diante deles. O maçarico venceu com esforço a inércia das asas e sobrevoou-a a custo. Mergulhou em seguida no leito da onda, esforçando-se por continuar em frente. A próxima crista era mais baixa, e ele ultrapassou-a com segurança. Mas atrás dele a grande vaga atacava, raivosa, as tarambolas. Três aves mais fracas lutaram em vão por ganhar altitude, e ficaram sem forças, penduradas no ar. Nenhum grito se ouviu. A vaga cresceu e engoliu as aves. Passou, e elas tinham desaparecido. A natureza, tão selectiva em todas as coisas, é ainda mais exigente quando se trata da morte. Os mais fracos não pedem compaixão, nem lhes é concedida misericórdia.
            O bando esforçou-se por continuar, voou rente à água, lutou encarniçadamente para ultrapassar as cristas das ondas. Gozou, para respirar, as pequenas pausas de segundos, no ar sossegado dos seus leitos. Então, de um longo talvegue cresceu uma muralha fervilhante, mais alta que todas as vagas anteriores. A espuma fustigou as asas do maçarico. Durante segundos teve que lutar com os violentos turbilhões da corrente para se manter no ar. Mas a espuma varreu uma parte da neve que se lhe colara às asas. Por um minuto estas puderam mover-se no ar com toda a força. Depois a neve sobrecarregou-as de novo. Apenas a certeza de que a frente fria seria em breve ultrapassada fez o maçarico aguentar.
            Muito lentamente o ar foi-se tornando mais quente, tão lentamente que mal se podia sentir a mudança. Então a neve transformou-se repentinamente em chuva. Estava ali a parede branca de neve diante deles, e após uma nova crista estalaram-lhes gotas de chuva nas penas. Alguns segundos depois já tinha derretido a neve das asas. O maçarico conduziu o resto do bando subindo em frente. A dor e o cansaço depressa desapareceram, as aves podiam voar outra vez normalmente e os músculos repousaram. A neve desapareceu na escuridão. Uns minutos depois romperam a frente fria e atingiram uma zona húmida e tranquila.

                                              
O CORREDOR DA MORTE

            ... E por vezes, nas tempestades do Nordeste, bandos de maçaricos espantosamente numerosos eram empurrados pelo vento para as costas da Nova Inglaterra, onde pousavam completamente extenuados. A sua caça era então um exercício fácil, podendo simplesmente abater-se à cacetada. A Nantucket chegavam em bandos tão grandes que as reservas de munições da ilha não eram suficientes. E a carnificina parava, até chegarem munições da terra firme.
            Os atiradores chamavam-lhes “aves-massa”, pois no Outono os maçaricos eram tão gordos que o peito lhes rebentava quando caíam no chão, e a camada de gordura era macia como massa de pão. Não admira que fossem tão perseguidos, pois deviam ser um bom petisco à mesa.
            Eram mansos e confiantes, e voavam em bandos tão densos que podiam facilmente ser abatidos em grande número... Dois caçadores que forneciam o mercado em Massachussetts ganharam 300 dólares com os seus tiros a um único bando... Crianças vendiam as aves a 6 cêntimos por cabeça... Em 1882, em Nantucket, dois caçadores abateram numa manhã 87 maçaricos... Em 1894, no mercado de Boston, já só apareceu um único à venda.
(Cont.)

sábado, 22 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 13

5

            O maçarico manteve exactamente o rumo sul. Quando os montes escarpados do Lavrador desapareceram da vista, deixou de poder orientar-se por qualquer marca no terreno. Apesar disso dirigia o bando com uma segurança infalível. Algures, no jogo de forças cósmicas entre a rotação e o magnetismo terrestres, havia uma linha de orientação, uma direcção em relação à qual o seu cérebro estava perfeitamente alinhado. Mantinha o rumo sem esforço. Um instinto velho de séculos completava inconscientemente esta obra-prima, que pedia meças às maiores realizações da consciência no reino animal.
            A noite ia a meio. Oitocentos metros abaixo do bando estendia-se a costa alcantilada da Nova Escócia e o cabo Breton, orlado de branco pela rebentação. O maçarico já algumas vezes tinha parado aqui, mas desta vez o ano já ia alto, era já tarde, uma escala estava fora de questão. O bando necessitara de cinco horas para atravessar o golfo de São Lourenço. E agora voava sobre a ponta do cabo Breton, na direcção do Atlântico, que se abria perante ele como uma goela escancarada.
            O maçarico mudou entretanto para uma posição mais cómoda, no meio das outras aves, e aí se manteve uma hora, cedendo o comando a uma tarambola. Então, vinda do continente canadiano, aproximou-se uma frente fria. Surgiram turbulências e ele colocou-se de novo à cabeça. O ar frio, mais pesado, empurrava para cima as camadas de ar inferiores, mais quentes. E uma vez que, a grande altitude, a temperatura era mais baixa, a humidade do ar quente condensava-se e provocava precipitação. Primeiro aguaceiros e depois neve, à medida que as temperaturas baixavam.
            As turbulências do ar davam que fazer ao bando. A princípio nevava apenas lentamente, mas depois os flocos tornaram-se maiores, amontoavam-se uns nos outros sobre as asas das aves, e dificultavam o voo. Instintivamente o maçarico ganhou altitude e todos o seguiram. Nas camadas superiores o ar era mais calmo, mas as nuvens de neve tornaram-se mais densas. As aves puderam de novo fazer a sua formação, mas tinham que confiar sobretudo na intuição, na percepção dos turbilhões fornecida pelas pontas das asas. A tempestade de neve era agora tão violenta que cada uma delas mal podia ver o companheiro que a precedia. Mas mantinham a altitude que tinham atingido.
            Não era possível avaliar a velocidade de passagem da frente, para Leste. Apesar disso, em parte por lembrança de anteriores migrações, e sobretudo por intuição instintiva, o maçarico sabia que à velocidade de 80 quilómetros por hora iriam encontrar de novo a frente fria. Mas então voariam à frente do temporal, uma vez que este se deslocava mais lentamente do que eles. Assim, teriam que alterar o rumo e voar com o temporal, para Leste, em direcção ao mar aberto.
            O maçarico mudou de direcção e as tarambolas seguiram-no, embora só as que vinham logo atrás dele pudessem ver que ele rodava para Leste. Acumulada entre as rémiges, a neve colava-se-lhes nas asas. E estas, que ainda há poucos minutos reagiam prontamente às flexões e distensões dos músculos do peito, eram agora pesadas e rígidas. Rodavam no ar como remos, desperdiçavam energia, empurravam o ar para baixo em vez de o aspirarem, de modo a provocar a corrente indispensável ao voo. A sua velocidade diminuiu até ficarem quase imóveis, um bando desordenado e confuso, a cerca de mil e quinhentos metros sobre o mar. Então o maçarico dirigiu-se mais para Leste. Começou lentamente a descer e, através da gravidade, ganhou a velocidade que as rémiges encharcadas não podiam atingir. O andamento era agora normal, mas tinham que perder altitude para o manter. Do deserto cinzento, lá em baixo, o mar crescia para eles.
            O maçarico foi descendo lenta e progressivamente, adaptou o ângulo de ataque das asas à pressão da corrente de ar, de modo a poderem manter a velocidade com um mínimo de perda de altitude. Às vezes abrandavam os turbilhões de neve e por momentos era possível manter a horizontal. Mas logo voltava a neve, de novo mais densa, as asas ficavam pesadas, e o maçarico tinha que voltar a descer.
(Cont.)

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 12


Finalmente o maçarico não pôde mais refrear o impulso migratório. E, após um dia tempestuoso em que as temperaturas pouco tinham subido além do ponto de congelação, caía a noite fria quando ele bateu as asas e se elevou no céu sombrio. O tecto de nuvens estava baixo e o bando organizou rapidamente a formação, dirigindo-se para o mar, com forte vento de frente. A esta altitude o vento fustigava-o já como uma tempestade, o que lhe reduzia a velocidade para metade. Frequentes rajadas tempestuosas desorganizavam a formação, e um par de tarambolas mais fracas ficaram para trás. Antes de perder de vista a acidentada costa do Lavrador, o maçarico soube que não poderiam prosseguir o voo nestas condições. Por isso voltou para trás e poisou o bando numa encosta abrigada do vento. O temporal bramia por cima deles.
            Tinham falhado a partida. Mas agora tanto as tarambolas como o maçarico estavam impacientes por iniciar a longa viagem. Tentaram-no em vão mais que uma vez. Inquieto, ele esperava condições mais propícias, mas estava a fazer-se tarde e os dias bons eram raros. As névoas aclaravam, porém o vendaval rugiu três dias e três noites, para os lados do Sul. Com interrupções, as aves continuaram a devorar caracóis e arandos já murchos. E ao quarto dia o vento mudou. Mais fraco e mais frio, soprava agora do Norte. Este vento de cauda era tão desfavorável como o vento de frente, pois dificultava o equilíbrio do voo e afectava os delicados controlos reflexos das rémiges. Durante três dias o vento norte assobiou. Até que lentamente acalmou, e no terceiro dia à noite virou de Oeste, agora apenas uma ligeira brisa. O maçarico tinha aguardado este vento de lado. E a noite caiu, clara e fria.
            As aves levantaram voo, ganharam altura e cerraram a formação, com o maçarico à cabeça. Tudo aconteceu com a precisão habitual, dir-se-ia quase automática. Ele e muitas tarambolas já tinham alguma vez superado este sobrevoo outonal do oceano, mas guardavam disso apenas uma vaga lembrança. A maior parte ficou confusa quando, de manhã, só mar deserto e vazio se estendia por baixo deles. Mas continuariam a voar sempre em frente, passaria mais uma noite e uma manhã, e debaixo deles estender-se-ia ainda o mesmo mar. As aves sabiam que ele era um elemento hostil, só em terra e no ar se sentiam à vontade. Mas quando não havia agitação no mar e excepcionalmente a água estava calma, poisavam algum tempo na superfície líquida e permitiam-se uns momentos de descanso. Porém, nadavam muito desajeitadamente. As suas penas não eram suficientemente gordurosas e encharcavam-se rapidamente. No alto mar raramente havia condições que permitissem poisar, mesmo momentaneamente. Por norma tinham que realizar o longo voo sem qualquer pausa, sem alimento e sem descanso.
            A luz calorosa do Norte brilhava ainda atrás deles, no céu do Lavrador. Mas apenas voltariam a ver terra quando poisassem na margem de um rio, na selva húmida da Guiana ou da Venezuela, com as penas desgrenhadas e os músculos entorpecidos de cansaço. No entanto, ao levantar voo, fizeram-no sem hesitação nem medo. Não reconheciam o dramatismo do momento, sentindo apenas um vago alívio por terem finalmente iniciado a viagem. Era uma bênção que os seus pequenos cérebros não pudessem abarcar a nua realidade. Criaturas minúsculas como eram, simples matéria aprisionada pela terra, desafiavam, mesmo assim, o mar e o céu imensos.

                                               O  CORREDOR  DA  MORTE

            Para incrementar e divulgar o conhecimento humano. Instituto Smithsoniano, Washington. Relatório anual da comissão de vigilância, sobre o ano que finda em 30 de Junho de 1915...
            Durante os meses de Agosto e Setembro, muitos anos ainda após meados do séc. XIX, chegavam à Terra Nova e às ilhas da Madalena, no golfo de São Lourenço, milhões de maçaricos-esquimós, que obscureciam o céu... Grupos de 25 e 30 homens abatiam num único dia duas mil aves, que iam para a feitoria da Companhia da baía do Hudson, em Cartwright, no Lavrador.
            Os pescadores costumavam salgar estas aves em barricas. À noite, quando dormiam nas escarpas da costa em grande número, homens equipados de lanternas para as encandear podiam aproximar-se delas e abatê-las em massa, à cacetada.
(Cont.)

domingo, 16 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 11


4

            Monotonamente sucederam-se noites de voo sem fim e dias inteiros a comer, nas águas paradas de pântanos. Atrás dos viajantes, a luz esverdeada do Norte era cada vez mais fraca, e os seus peitorais ficavam cada vez mais fortes. Incansavelmente voavam todas as noites até à alvorada. Nos pântanos salgados da baía de James havia alimento abundante. E ficaram aqui muitos dias, empanturrando-se com os minúsculos bichos do lodo, até finalmente o Sul os chamar de novo. O maçarico conduziu-os directamente para Leste. Dirigiram-se para o Lavrador, sobre as alturas do Quebec, na direcção dos recifes de gneisse do golfo de São Lourenço.
            A madrugada seguinte apareceu fria e nebulosa, e no ar havia um penetrante cheiro a sal. As aves notaram-no e o maçarico guiou-as em frente, até que surgiu a aurora de um dia cinzento e sem sol. O ar aqueceu um pouco, os bancos de nevoeiro dissiparam-se, e atrás dos farrapos de nuvens viam-se, aqui e ali, manchas acastanhadas. Era o planalto costeiro, rochoso e escalvado. O cheiro a sal tornou-se mais forte e o maçarico sabia que se aproximavam do mar. A névoa tornou-se de novo mais espessa. Mas ele manteve o rumo, embora à sua volta tudo fosse impenetravelmente branco. De repente chegaram-lhe aos ouvidos o estrondo da rebentação e os gritos das gaivotas. O maçarico começou a descer em voo planado. Com glissagens ocasionais, controlou a velocidade de descida. As tarambolas rompiam a formação mas seguiam-no. Nivelaram o voo alguns metros acima da água, tomaram a direcção das ondas e voaram sobre as cristas, até que as escarpas surgiram da neblina. Na sua frente erguia-se uma imensa parede rochosa. O maçarico voara às cegas durante várias horas, mas falhara a costa apenas por um quilómetro.
            As aves ganharam altitude, deslizaram sobre as falésias e poisaram. Lá estavam por todo o lado os ramos dos arandos, não muito diferentes das urzes. Em certos locais, os frutos purpúreos e carnudos eram tão grandes que ocultavam a folhagem, e as aves começaram imediatamente a comer. Um vento frio chegava do mar e alguns chuviscos caíram sobre elas. Após uma hora pararam de comer e encostaram-se umas às outras. Voltaram as cabeças contra o vento, para que a chuva deslizasse sobre as penas e escorresse pela cauda.
            Agora tinham apenas que comer durante duas semanas e acumular gordura para o longo voo do Atlântico, até à América do Sul. Agosto ia a meio e o Verão no Lavrador quase tinha passado. As noites geladas alternavam com dias carregados de nevoeiro. Elas comiam as bagas dos arandos, comiam e comiam, até as pernas e os bicos e as penas e os excrementos ficarem manchados de sumo púrpura. Quando por vezes a névoa se dissipava e aparecia o sol, o que era raro, voavam até à praia, na maré baixa, e procuravam caracóis e camarões.
            Todos os dias deparavam com bandos de tarambolas-douradas. O maçarico deixava então de procurar alimento, e passava uma vista de olhos pelo bando, à procura dum companheiro da espécie. Mas não aparecia nenhum, e do género das narcejas apenas as tarambolas-douradas faziam caminho por aqui. Havia, porém, muitas outras aves, sobretudo gaivotas, que gritavam roucas na neblina. Em frente da costa passavam eider-reais, em infindáveis bandos pretos e brancos. As tordas-mergulheiras e os araus, com as suas asas curtas e o voo pesadão, grasnavam e brigavam ainda nos picos da falésia, onde tinham criado as ninhadas.
            Nesta inactividade, o maçarico e as tarambolas acumularam gordura muito rapidamente. Os seus peitos ficaram outra vez redondos e macios, da gordura armazenada sobre os poderosos músculos. Agosto ia no fim, e de novo a antiga inquietação se apoderou deles. Quando o tempo aclarava e o vento era favorável, milhares de tarambolas levantavam voo e dirigiam-se para Sul, sobre o golfo de São Lourenço, na direcção do imenso Atlântico. Mas o maçarico esperava ainda, qualquer coisa o refreava. O seu pequeno cérebro podia senti-la, embora não a soubesse definir. Vagamente considerava apenas que os maçaricos-esquimós tinham que seguir este caminho, no regresso da tundra.
            A sua impaciência foi crescendo e ele achava-se dividido entre o desejo de partir e o de esperar um pouco mais. Esta intranquilidade serenou um pouco quando começou a voar com o seu bando, junto à costa. Eram longos troços, com ele no comando. Então algumas aves abandonavam a formação e juntavam-se, às duas e três, a outras tarambolas que partiam para o Sul. Quando chegou Setembro e as noites se tornaram de repente mais frias, o bando já tinha apenas metade do tamanho inicial. Dos bancos de nuvens que deslizavam do mar caíam de vez em quando grandes flocos de neve. As últimas tarambolas já tinham partido. Restava apenas o seu bando, para além das gaivotas e dos eider-reais.
            Os arandos ficaram inteiriçados sob o gelo e já não deitavam sumo, tornando escasso o alimento. E a gordura que todos tinham armazenado como reserva de energia para a travessia do oceano começava já, demasiado cedo, a ser utilizada.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Fezadas

(...)
Há mais de cinquenta anos o Rasga foi ao São Roque com a mulher, ela cheia de fé, ele com muita sede, como sempre, até a cirrose o consumir. A feira e a romaria partilhavam a data e o espaço. Não sei das promessas dela,as mulheres lá tinham contratos com os santos, não era costume explicitá-los, ele tinha as mãos cheias de cravos, coisa de rapaz, julgava que era feitio. A mulher dissera-lhe que havia de ir ao São Roque, o Maravilhas curou-se, o Ti Velho também, pelas outras aldeias ia a mesma devoção, os resultados eram de monta. O Rasga até tinha pensado no ferrador, não para ferrar o macho, ele queimava os cravos, mas eram grandes as dores, ficavam as mãos com marcas piores que a cara do medo com as bexigas, e a febre, às vezes, levava a gente. Já se acostumara, não valia a pena ralar-se, o pior era mulher a azucrinar-lhe os ouvidos, tens de ir ao São Roque, se trabalhasses em vez de beberes havias de ver o incómodo, eu faço-te companhia, és um herege, uma oração, uma pequena esmola, dois cruzados, um quartinho no máximo, o São Roque não é interesseiro, vens de lá bom, levas a burra que já mal pega em erva, enjeita os nabos, não temos feno, há-de morrer-nos em casa, além do prejuízo vais ser tu a enterrá-la, podias vendê-la.
E lá foram os três, que a burra também contava, partiram quando a Lurdes e a Purificação já levavam uma légua de avanço, tinham bestas lestas e levantavam-se cedo, era mister que se antecipassem aos homens que quando chegavam logo queriam matar o bicho e os negócios não podiam fazer-se sem haver onde pagar o alboroque. (...)
Findas a feira e a festa, esta terminou primeiro, um dos padres ainda tinha que levar o Viático a um moribundo de Pínzio, o Rasga e a mulher vinham consolados, ela com a missa e a procissão, ele com duas notas e meia no bolso e o bucho cheio de vinho, ela a pensar na vida e ele a cambalear.
Algum tempo depois perguntei ao Rasga o que era feito dos cravos. Ficaram no São Roque, menino, ficaram no São Roque.
(Barroco Esperança, Pedras Soltas, 2006)

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O último maçarico-esquimó 10


Muitas vezes junta-se às tarambolas-douradas um grande fuselo americano, e ocasionalmente acompanham-nas outras narcejas, na longa rota do Atlântico. Esta rota é de facto um encurtamento, mas só o maçarico-esquimó e a tarambola-dourada a percorrem regularmente todos os outonos. Entre as aves do Árctico, só eles possuem a força e a velocidade de voo indispensáveis para fugir ou enfrentar as tempestades do alto mar, que não são raras. Além disso, graças a esta rota, elas podem usufruir dos arandos escuros que amadurecem no Outono, e crescem abundantemente nas encostas e nos planaltos do Lavrador. As aves que migram sobre o continente privam-se destas reservas de alimento. Ao contrário, na Primavera, as tarambolas e os maçaricos têm que seguir a rota habitual sobre as planícies do Oeste, pois nessa altura os arandos estão endurecidos e mortos, debaixo da neve. No Lavrador ainda domina o inverno, quando o Árctico se cobre já dos verdores da Primavera.
            Pela manhã, a tundra lá em baixo não era já tão cinzenta e monótona. Manchas escuras e sinuosas atravessavam o terreno. Desde o cair da noite, as aves tinham deixado para trás seiscentos quilómetros, e agora aproximavam-se da fronteira dos bosques subárcticos de abetos. Os prolongamentos escuros que penetravam na tundra eram vales de rios florestados. Estes vales protegiam os pequenos abetos das tempestades de neve, e permitiam-lhes sobreviver. Aos primeiros alvores da manhã, as aves desceram na zona pantanosa de um lago. Repousaram por uns momentos e começaram a comer logo que a manhã clareou.
            Com as suas pernas altas e o bico encurvado, o maçarico sobressaía claramente no meio das tarambolas, que tinham penas mais escuras e bicos mais curtos. Sendo concorrentes e inimigas na reserva, as duas espécies migravam em conjunto há inúmeras gerações, e aqui misturavam-se como iguais. Chegavam outras narcejas - pernas-amarelas, borrelhos, pilritos-das-praias  -  que andavam por ali e se retiravam. O maçarico observava-os cuidadosamente, pois algures na tundra imensa deveria haver companheiros seus.
            Comiam durante todo o dia, e só ocasionalmente faziam uma pausa para descanso. Quando chegava a escuridão, voavam de novo. Durante a subida era frouxa a coesão dentro do bando. Mas, logo que ganhavam altura, faziam rapidamente a sua formação em cunha, graças à qual a raiz da asa de cada ave era sustentada pelo turbilhão da asa precedente. O maçarico assumiu o comando e as tarambolas cerraram formação atrás dele, com elegância e leveza, como se tivessem treinado longamente a manobra. Elas não tinham escolhido conscientemente um chefe. Este tinha que se esforçar particularmente para vencer a resistência do ar, e para obter impulso ascencional e velocidade. Uma vez que o maçarico era o voador mais forte, o resto do bando colocou-se atrás dele. E as tarambolas organizaram a sua formação tão espontânea e automaticamente como respiravam.
            Depois de voarem algum tempo, as linhas escuras abaixo deles entrelaçaram-se num verdadeiro tapete. Encontravam-se agora sobre os bosques de abetos, e a tundra tinha ficado para trás. Outras narcejas voavam directamente para sul, na direcção dos planaltos, mas o maçarico conduziu o bando para Sueste, em busca dos arandos do Lavrador. Ocasionalmente entregou a chefia a uma tarambola, e tomou posição no meio da formação. Mas, após um curto repouso, retomou o lugar inicial.


O CORREDOR DA MORTE

                        SESSÕES  DA  ACADEMIA  DAS  CIÊNCIAS  NATURAIS
                        DE FILADÉLFIA  -  1861

            13 de Agosto. Presidência do Dr. Leidy, com a presença de nove membros. Foram apresentados os seguintes artigos para divulgação: Robert Kennicott, “Sobre três novas formas de cobra cascavel”; Elliott Coues, “Notas sobre a ornitologia do Lavrador”...
            Um extraordinário número de maçaricos-esquimós chegou à costa do Lavrador, vindo dos locais de nidificação situados a Norte. Estas aves voam muito rapidamente, em bandos enormes, contando muitas vezes vários milhares de exemplares... Eu próprio pude observar uma espantosa ilustração da persistência com que se agarram a determinados locais de alimentação, mesmo quando severamente molestados. A maré alta ia alagando uma zona pantanosa com cerca de um acre de extensão, onde abundavam os caracóis que eles tanto apreciam. Embora ali estivessem cinco ou seis caçadores, que de todos os lados disparavam incessantemente contra as pobres aves, elas continuavam a circular sobre nós, confundidas e excitadas, apesar de muitas delas irem sendo atingidas e caírem ao solo. Pareciam muito preocupadas com a possibilidade de os caracóis, seu petisco habitual, lhes poderem escapar...

            Por determinação da comissão editorial e bibliotecária, são divulgadas as seguintes sessões da Sociedade de História Natural de Boston, de 1906/1907...
            Comunicação n° 7 - Dr. Méd. Charles W. Townsend e Glover M. Allen, “As aves do Lavrador”... Numenius borealis (Forster), maçarico-esquimó. Um hóspede de Outono no Lavrador, antigamente muito abundante, hoje muito raro.

                                   Vem Agosto e tu estás à beira-mar
                                   Mil belos maçaricos chegam todos os dias.

            Packard escreve deste modo: “A 10 de Agosto de 1860 apareceram os maçaricos em bandos. Vimos um que tinha bem um quilómetro e meio de comprimento e quase outro tanto de largura. O barulho que faziam parecia às vezes o vento que zune no cordame dum navio de mil toneladas...”.
            Porém, aquando da nossa visita à costa do Lavrador, no verão de 1906, já não vimos um único maçarico-esquimó. Falámos com muitos habitantes daqui e todos concordaram em que ele ficou de repente reduzido, sendo outrora muito disseminado. Agora, no Outono, avistam-se apenas dois ou três, ou mesmo nenhum. O capitão Parsons, do barco postal Virginia Lake, disse-nos que ainda havia muitos, aqui há 30 anos. Nesse tempo, antes do pequeno-almoço, abatia ele uma centena, chegando mesmo a atingir vinte com um único tiro. Os pescadores dizimavam-nos aos milhares... Tinham as espingardas preparadas nos pontões e atiravam aos bandos que chegavam aqui, matando 20 ou 25 aves por cada tiro. Resumindo, podemos dizer que os habitantes do Lavrador sempre perseguiram o maçarico-esquimó, mas só entre 1888 e 1890 verificaram que os efectivos se tinham reduzido. A partir de 1892, só um pequeno número destas aves, antigamente tão abundantes, visitou a costa do Lavrador... Parece que esta espécie está em vias de extinção.
(Cont.)