quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Primavera a fingir

As circunstâncias tornaram-se propícias: na véspera instalaram a Internet e eu descontraí enfim; a manhã trouxe um sol primaveril, a negar as previsões dos manda-chuvas; a Caixa tinha pago ainda uma vez a reforma duma vida longa. E assim me decidi a abandonar o fojo, a mandar à bardamerda a austeridade e a dar uns sinais de vida. Fui comprar um chá de bergamota com florinhas de aciano e almoçar num restaurante à beira dum riozinho das minhas predilecções. Isto na cidade que me está mais à mão, uma que tem, nas alturas da sé, um traseiro desnudo e insolente exibido a Castela.
Nos passeios havia montões de neve, suja e dura, congelada, restos do nevão da véspera. E uns automóveis arriscavam-se nas ruas às apalpadelas. A aragem cortava como facas apesar do céu azul, e eu lancei mão dum bastão ferrado de montanheiro que anda na mala do carro. Há muitos anos que o trouxe de Krimml, uma cascata alpina que fui ver em tempos mais promissores. Salvou-me de me estatelar no gelo, enquanto andava à procura duma latinha do chá.
No restaurante estavam à minha espera uns sabores muito antigos, à beira do riozinho. E às tantas faiscou à flor da água um guarda-rios, um pássaro fugidio que é azul com pinceladas de fogo. Parou à minha frente no braço dum salgueiro, mirou as trutas que flanavam na corrente e foi à vida, como as setas disparadas.
Eu pedi à camareira uma embalagem e trouxe para casa o almoço que sobrou, porque era demasiado. E assim voltei às falácias da puta da austeridade, porque afinal a primavera era a fingir.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Nine eleven?

Não é possível dizer melhor o que foi aquilo e o que pretendia. 
[rapinado aqui]

Dez minutos de leitura

Sobre a alienação da TAP, às mãos duma quadrilha de facínoras, ignorantes, cobardes e traidores.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Havemos de voltar

 À crítica, à poesia, à arte das palavras havemos de voltar. E mesmo aos palavrões, tendo que ser. 
Se a força nos fugir, alguém há-de ajudar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Semanada

Não fora a horta, e os cuidados que requer a terra dela, não sei bem como teria sido esta minha semana. O carro esteve de baixa um ror de tempo, a exigir uma junta da culassa que se queimou por causa dum antigelo. A França parece que entrou em guerra e eu ainda não vi imagens dela, porque os artistas da MEO já por duas vezes agendaram a montagem duma antena, e duas vezes faltaram. Dum telefone e da Internet o melhor é nem falar para não levantar a lebre. Não sei como se vive hoje sem eles, mas só mos prometeram daqui por uma semana.
Ficou-me um tambor de roupa aprisionada na máquina. Entre inconfessáveis subtilezas, os alemães têm fama de entendidos em forjas e tecnologias. E sê-lo-ão. Foi por isso que uns artistas mandaram vir da Alemanha o aparato, pediram-me por ele uma fortuna e instalaram-mo em casa.
O manual de instruções é um alcorão completo. Por deformação profissional li-o mais do que uma vez, e concluí que à máquina só lhe faltava falar. Escolhi um programa adequado à roupa suja, e tudo correu bem até chegar a centrifugação. Aí desatou a máquina aos coices e aos pinotes, e na emergência decidi cortar-lhe o pio, antes que me deitasse a casa abaixo.
Pudera, a pobre! Os profissionais do ramo instalaram-na num buraco, ligaram-lhe as entradas e as saídas, prontíssima a funcionar. Mas não lhe retiraram os quatro ferrolhos que a protegiam durante o transporte. Com o programa interrompido, o tambor deixou de abrir, por lógicas de básica segurança.
Estava então a correr a quinzena das Festas, que desta vez foi uma rebaldaria. Às quartas a ceia da Consoada, o Ano Novo a chegar às quintas, lá pelo meio uns sábados e uns domingos onde se ganharam direitos ao lazer, conforme vem escrito nos códigos em vigor. De forma que as oficinas fecharam quinze dias, e os artistas foram-se às rabanadas e a uns copitos em família.
Eu acabei por me esquecer da roupa, abdiquei da informação, fiz o que pude para resistir ao black-out malsão, à paralisia inútil, a uma grande vontade de partir em viagem sem destino. Mas fui-me à horta e preparei a terra para os mimos que hão-de vir na primavera. Quando o cavername se queixava, ouvia um rádio antigo que ali guardo. E por pouco confiar nos romances que hoje se premeiam, fui ler outra vez Os Cus de Judas, dum Lobo Antunes que ainda não era um génio, e ajudou então a pôr a Europa a ler-nos.
Entretanto uns nómadas suíços andaram aí uns dias, aqueceram o rabo ao madeiro das tradições e partiram outra vez. É que para lá dos Pirinéus trabalha-se. E é justamente por isso que os indígenas mereceram sempre o fadário andarilho que há gerações os persegue.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015