Se o crude é caro, chove; se ele é barato, troveja.
Quem é que, por enquanto, ganha sempre?!
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Ferralha aos cafres
Os cabrões faziam negociatas, vendiam ferralha aos cafres, compravam as decisões de responsáveis canalhas. Um forrobodó.
O mexilhão herda a dívida, que tem as costas largas.
O mexilhão herda a dívida, que tem as costas largas.
sábado, 27 de dezembro de 2014
Ventos
Do Norte vem o cieiro. É seco e frígido, e corta as carnes
da gente, como um gume. Já do Sul chega o suão, bem mais macio e molhado. Entre
um e outro, venho o diabo e escolha.
O sol, que é um vagamundos, já deu começo à volta do filho
pródigo. Vem de longe e ainda demora, ainda tem que passar pelas Sete-Pipas, e
a Cruz de Pedra, e o descampado todo, até subir ao pico do castro de Casteição.
Só aí os corpos folgarão.
A festa é por isso antecipada, prematura como todas as esperanças.
Desde há séculos que o mundo sabe estas coisas, salvo quem anda a aprendê-las.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Sebastianismo 10

Visão do autor: uma no cravo e duas ao lado!
«Existe um profundo equívoco no modo como histórica e
sociologicamente se tem interpretado o fenómeno do sebastianismo. Com efeito,
este não se tem constituído apenas como um negativo ponto histórico de chegada:
o cume da expansão marítima portuguesa na segunda metade do séc. XVI e o
princípio da decadência histórica posterior. Diferentemente, o sebastianismo
tem-se constituído também como positivo ponto de partida ou como motor ético
que tem forçado, nos últimos 400 anos, cada português a agir, crendo que no
seio da injustiça social geral propulsionada pelas elites que dominam o poder
político e económico, algo ou alguém lhe alterará a sorte desgraçada,
encaminhando-o para uma vida mais próspera. (…)
Assim, a crença sebastianista tornou-se a última
esperança do português – contra ou paralelamente às elites reinantes, o
sebastianismo aposta num recomeço, reconstruindo a vida bloqueada pelas
políticas do Estado, acreditando que o futuro pode repetir o passado longínquo
e a actual população ou os seus filhos (ainda) podem ser felizes. (…)
O português em geral não usufruiu da imensa riqueza
proveniente das especiarias, do açúcar, do ouro, do café, das oleaginosas,
sempre monopolizada por fidalgos e funcionários régios ou por aventureiros.
Sentiu que algo que pertencia a Portugal inteiro como país e nação era
usufruído apenas pelas elites ligadas ao Estado e sentiu-se incompleto e
irrealizado. Assim, por um estado de necessidade, o sebastianismo consiste numa
representação mental generalizada, constitutiva da mentalidade de todos os
grupos sociais. Ou, como regista José Enes, “o heroísmo [do Império] expirou em
catástrofe” (…).
Sintetizados no sebastianismo, desenham-se os 4 complexos
culturais constitutivos da personalidade do português:
Complexo
Viriatino – baseado na imagem de Viriato, homem impoluto, puro,
virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor
humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro, conduzindo
os lusitanos a sucessivas vitórias (…).
Complexo
Vieirino – Nação superior: da decadência do Império a partir de D.
João III, do fracasso de Alcácer Quibir e da perda da independência, nasce o
assombro de nos sentirmos insignificantes depois de nos termos sabido gigantes
na descoberta da totalidade do mundo. Pe. António Vieira, resgatando o
providencialismo de Ourique e o milenarismo judaico de Bandarra, dourou-nos o
futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome
de V Império. (…)
Complexo
Pombalino - Nação
inferior: no final do séc. XVIII, após 250 anos de domínio exclusivo da Igreja
Católica na formação da mentalidade colectiva portuguesa, (…) Portugal
reconheceu a sua pobreza intrínseca – o comércio urbano e as exportações
encontravam-se nas mãos dos ingleses, o pão era confeccionado com farinha
branca inglesa, o carvão importado da Inglaterra, os trajes tecidos de seda de
Lyon e das fazendas dos teares de Manchester, a louça provinda de Itália, as
berlindas armadas em Paris, escolas públicas inexistentes, estradas reais inexistentes,
(…). Pela Europa culta ostentavam-se os espectáculos públicos nacionais como
exemplos de barbárie e superstição: autos-de-fé, procissões penitenciais e
touradas. O Marquês de Pombal reagiu a esta situação catastrófica
revolucionando o todo de Portugal – tesouro régio, educação, economia, urbanismo
– assente na profunda convicção de que a Portugal nada faltava para ser igual
aos restantes países, caso se alterasse o perfil das elites, insuflando-lhes um
banho de Europa. (…)
Complexo
Canibalista - (…)
Se quiséssemos definir o tempo moderno e contemporâneo da cultura portuguesa
entre 1580 (perda da independência) e 1980 (acordo de pré-adesão à CEE), (…)
defini-lo-íamos como o tempo do canibalismo, o tempo da culturofagia, o tempo
em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova
doutrina emergente destruindo e esmagando as anteriores, (…).
Para efeito do ambiente educacional e social, cada
português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro
figurações da história e da cultura pátrias. (…)
Assim, ainda que de origem histórica profundamente
negativa, o sebastianismo constitui igualmente uma espécie de motor ético dos
portugueses, forçando-os a acreditarem ser o futuro melhor do que o presente,
mesmo que para tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa,
que do país se apodera como coutada sua, e emigrar, como o fazem hoje.»
[A propósito do tema, que aqui finda: a função dos pensadores é abrir janelas ao povo, a quem falta o tempo de pensar. Janelas de lucidez, de racionalidade, de progresso. Isto em sociedades saudáveis, não na nossa!]
[A propósito do tema, que aqui finda: a função dos pensadores é abrir janelas ao povo, a quem falta o tempo de pensar. Janelas de lucidez, de racionalidade, de progresso. Isto em sociedades saudáveis, não na nossa!]
Solstício
Deitei um filho ao mundo, escrevi um livro ou dois, fiz
uma casa nova na paisagem. E tirei a tralha dos caixotes antes que a noite
chegasse. Encerei bem as madeiras, limpei as lixaradas, fiz a cama em que me
vou deitar. No fim saí ao alpendre a sondar o horizonte. Era ainda o mesmo que avistei,
há uns cem anos por pouco, numa antiga madrugada em que os olhos se me abriram
pela primeira vez.
Encontrei à minha frente a Orion, com a Betelgeuse e as
três Marias no meio, desenhadas num céu que suspendeu as névoas para me
surpreender.
Rejubilei do presságio e fui dormir. É que me falta enraizar
umas árvores, e acordar cedo para sujeitar à horta os alhos mais as favas. Já
está aí o tempo deles.
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