domingo, 2 de novembro de 2014

Os mantras dos mixordeiros, para esvaziarem o efeito Costa - 1

O Costa não se define, não diz o que quer. O PS não tem programa alternativo para o país.

Sócrates

26 de Outubro.

Da capo

Pai Natal

Diz-se que nascer é uma benesse. E assim será. Mas a bênção verdadeira consiste em ser infante no seio dum casalinho português da middle-class. É uma cornucópia de bem-aventuranças bem digna do Pai Natal.
A primeira decisão que os papás tomam, mal o infante se instala nas suas vidas, é deixarem de ser mulher e homem. Abdicam da condição, no bom propósito de se tornarem papás a tempo inteiro.
Há um tempo em que o infante se limita a deglutir, a dormir e a defecar. E os dois papás, enquanto seguem ansiosamente o gráfico dos pesos e medidas, vivem o seu período de exaltação.
Depois o infante começa a gatinhar, começa a gaguejar, ensaia os primeiros gestos de representação. É então que os dois papás, mais a família inteira, e também os amigos que vieram, lhe oferecem o papel de prima-donna e lhe cedem o palco inteiro. Organizam no salão a roda em volta dele e cada um a seu modo o estimula. A mamã pede-lhe um gesto, a tia dá-lhe uma deixa, a avó bate-lhe palminhas à precocidade. E o infante faz o pino, puxa a orelha do gato, deita a linguita de fora, cospe na mão da madrinha. A distância entre o infante e um macaquito de circo reduz-se perigosamente. Mas ganha imenso a alegria do salão e a felicidade colectiva.
O infante já descobriu que está no centro dum mundo onde nada mais existe que o seu egoísmo cruel. E estabelece metodicamente a sua ditadura, em que vai introduzindo invencíveis tácticas de guerrilha. Não tem horas de dormir ou de comer, nem de chegar ou partir, nem de falar ou de ouvir.
O casalinho há muito que anda esfalfado, que não dorme, que não vive. Evita lugares públicos onde se exija alguma compostura, e há muito tempo que trabalha a meio gás. Mas assume esse calvário em função dum projecto de família, e mais que tudo em função do seu projecto de futuro.
Tendo assim sido menino, o infante faz-se criança, e torna-se adolescente, e há-de alcançar um dia a maturidade. Na escola descobriu o telemóvel, conheceu o mp3 dum companheiro, ouviu falar duma nova play-station. E só há boa cara para os papás se eles aceitarem o negócio. Caso contrário não abre a porta do quarto. Depois a cena repete-se por aquela marca de roupa, por um acessório gótico, por um camuflado da guerra do Afeganistão.
Um dia a criança quer ir à discoteca. E os papás, que já não têm vida própria, que têm que trabalhar, que deixaram de ter intimidade, que há muito se não entendem, que padecem de impotência irreversível, pagam a um segurança profissional que a venha buscar a casa, e lha devolva às quatro da manhã.
Os papás já não são uma família. O infante agora só tem mamã, porque o papá foi-se embora. E um dia o adolescente, desinteressado da escola, vai à sua viagem de finalistas, porque no último período fez um esforço que afinal não resultou. A mãe arranja um segundo trabalho, que um só não chega para as encomendas. Além dum carro para poder ir às aulas, ela tem que lhe pagar as propinas na privada, onde o infante se há-de licenciar um dia em Relações Internacionais.

Weltliteratur

No último Ípsilon, António Guerreiro abre-nos o cartucho do Prémio Leya (cem mil euros, recentemente atribuído), desenrola o novelo que ele de facto é, e aponta o que isso significa para a literatura. Tudo bem diverso do que imaginamos.
1)
- O júri é constituído por 7 (sete) destacadas personalidades do mundo literário e cultural;
- A escolha do júri é feita sobre um corpus de dez inéditos, no máximo;
- As centenas de trabalhos concorrentes são previamente seleccionadas pela editora, segundo critérios que hão-de ser tudo menos neutros; 
- O autor premiado abdica de direitos de autor até aos 85 mil exemplares vendidos;
- E "cede à Leya o direito exclusivo de explorar comercialmente (o livro) sob todas as formas e em todas as modalidades, em todo o mundo";
- Isto é, não existe aqui prémio algum. Há um contrato comercial, onde alguma alínea obscura incluirá um prestígio simbólico e imaterial, avalizado por destacadas personalidades.
2)
- A concepção de uma literatura como objecto autónomo cedeu aqui lugar a um produto literário do género editorial.
- E este editorialismo define hoje uma "literatura mundial", que nada tem que ver com a Weltliteratur de que em tempos se falou. Esta "mundialidade" literária não é o estado de um conjunto de obras, é o produto que sai duma "fábrica do universal".
- Por este caminho, para onde vai a literatura? - [pergunta A. Guerreiro, que responde]: vai no sentido do seu desaparecimento, ou pelo menos de uma forma de desaparecimento que nos faz ver claramente quão exíguo é o espaço público que lhe está reservado.
3)
Há nos trabalhos de Tordo uma grande vantagem: ele sabe o que é uma história, e conta-a com eficácia. O que lá vem dentro, e para que serve, é outra questão. 
É literatura de sala de espera, que alguns académicos confusos misturam com cosmopolitismo, sem darem conta dos equívocos em que nos encurralam.
Ou a obra literária rompe dum húmus cultural próprio, ou é um produto de mercado semelhante aos pepinos. Que são iguais aqui, ou na Finlândia, ou na ilha da Taprobana.

Cartas ao director

A propósito da comenda de Cristo a outorgar pelo Cavaco (que a Sócrates não faz falta), oiça-se a voz do povo, o nevoeiro mental que para aí anda, a tolice contentinha, a necedade, a desinformação, a ignorância de quem emprenha de ouvido.
Um tal Gaio, quiçá ingénuo e bem intencionado, há dias dizia assim:

« (...) Houve benefícios para o País a creditar ao consulado de José Sócrates? Certamente que houve. Mas também houve incontáveis prejuízos que pesam negativamente no seu desempenho. (...) Lembro a “febre” da construção de auto-estradas, muitas absolutamente desnecessárias — como o constata o reduzidíssimo tráfego que lá se verifica. Lembro o frenesim do projecto do novo aeroporto de Lisboa — primeiro na Ota, depois no Montijo — a enormidade de trabalho realizado em estudos, em avaliações, em propostas, etc. Lembro, finalmente, o comboio de alta velocidade. Os estudos que se fizeram, os pareceres que se procuraram, os consultores que foram solicitados, a enormidade de propostas avaliadas! E tudo isto rigorosamente para nada! E o dinheiro incontável que foi enterrado nestas aventuras — e cujo montante, os contribuintes desconhecem — certamente que faria muito jeito para minorar a gravidade da nossa presente situação. Acham que este despesismo descontrolado, este esbanjamento sem medida do dinheiro dos contribuintes é compatível com a atribuição de qualquer condecoração? Eu acho que não.»

O Sócrates andará longe de merecer a comenda da rotina. Em contrapartida, muitos portugueses merecem bem o que têm.

sábado, 1 de novembro de 2014

A natureza mostra o que é básico

A desorientação, o sofrimento, a angústia, o medo, o desespero, a anarquia e o caos, que dia a dia se vêem alastrar na sociedade portuguesa, são o mesmo efeito inelutável de uma causa conhecida: quando um rebanho abandona o pastor, acaba tresmalhado.
Os portugueses (em grande parte e desgraçadamente a imagem do rebanho) tinham um governo limitado, contingente, mais do que capaz de errar. Mas era patriota e era sério, mesmo quando cometia erros.
Levados pelas vozes falaciosas duns escroques primários que servem a oligarquia, e empurrados pelo aventureirismo dumas seitas conhecidas, os portugueses lançaram-no borda fora. Esquecidos já de tantas lições da história, que nunca conheceram muito bem, deram a chave da casa a um bando de assaltantes e traidores. Agora é isto. Até à redenção!

Ulular

O ulular das bestas perante a realidade é sempre patético, enquanto não for trágico. Salvífico é só não o temer, nem recuar perante ele.
Há mais, aqui.